junho 03, 2014

Fotografia

"Queria que quando saísse do comboio e depois de acender um cigarro me tirasses uma foto. Sem eu perceber". Foi o que me pediste por mensagem, quando estava a ir ao teu encontro. Na altura não to disse, mas confesso-te agora que fiquei com medo que me tivesses pedido isso como se quisesses que eu te registasse pela última vez, tipo foto para a posteridade, do género "fica lá então com uma última imagem de mim, de como eu estou, de como eu sou, guarda-a na tua galeria de fotos para mais tarde me recordares". E ainda por cima depois de acenderes um cigarro, o que me dá a entender que ficarias calmo e relaxado o suficiente para te expores para a minha objectiva. E ainda por cima, querias que eu te tirasse a foto sem tu perceberes... E aí eu percebo que talvez também tenhas feito o pedido a medo. "Tira-me uma última foto, mas sem eu perceber, porque eu sei que será a última e isso vai-me custar". Tal como quem diz "vai mas não olhes para trás, porque dói-me tanto quanto te dói a ti". Ora, foi um simples pedido, nada de extraordinário, nada de mal, e aqui estou eu a divagar e a pressupor. Uma foto é só uma foto... Mas tu não fazes ideia do quanto eu não te queria fotografar uma última vez, se assim tivesse de ser. Nem sequer imaginas a quantidade de fotos que eu já te tirei sem te aperceberes. Sem precisar de câmaras fotográficas profissionais ou das que constam nos telemóveis de último grito. Sem precisar de efeitos especiais de luz ou de sombra, sem precisar de te pedir que faças determinadas poses ou sorrisos forçados, porque afinal quanto mais espontânea for uma foto, melhor. Guardo um extenso álbum comigo, que vou folheando todos os dias; e vejo as tuas fotos, aquelas em que sorris e me olhas com ternura, aquelas em que olhas para o nada, aquelas em que não olhas para lado nenhum e eu continuo a olhar-te, a captar-te e a gravar-te, sem dares conta disso. Tiro fotos tuas antes, durante e depois de acenderes os teus cigarros - não precisas pois de me pedir nada. Mesmo que não me tivesses pedido que te tirasse uma foto quando saísses do comboio e depois de acenderes um cigarro, eu tirava-a... E até hoje, até agora, mantenho a esperança de que cada foto que eu te tire não seja de facto a última. É que ainda há muito espaço no álbum... Tanto quanto aquele que o meu coração guarda para ti.

maio 29, 2014

Páre, Escute, Olhe

Todos nós temos as nossas memórias de infância; em forma de cores, sabores, cheiros e sons. Lembro-me de uma, particularmente ligada ao Verão: "ta-dum ta-dum". Era o barulho que o comboio que me levava até à praia fazia (eu sei que é difícil exprimir um som por palavras, mas era assim que me soava na altura, e ainda soa). E lembro-me do resto: de eu, mais a minha família, apanharmos autocarro até à estação do Cais do Sodré e depois o comboio da CP que percorre a linha de Cascais. Descíamos sempre em Santo Amaro de Oeiras, em direcção à praia, não sem antes passarmos por uma banquinha que vendia deliciosas bolas-de-berlim repletas de creme (era da praxe comprarmos as ditas, mesmo antes de chegar ao areal) e ainda por uma mercearia (que já não existe actualmente) na qual nos abastecíamos com o farnel necessário para o resto do dia (e onde não poderia faltar, a meu ver, o Bollycao e as batatas fritas).

Lembro-me também de passar horas a fio na água, à beira-mar, de travar amizade com outras meninas que por ali brincavam, a fazer castelos na areia. Na hora do regresso, depois de um grande dia, voltávamos a apanhar o comboio e, embora eu habitualmente adormecesse, com aquela moleza típica de quem passou um dia na praia, o som do comboio fazia-se ouvir e ecoava na minha cabeça: "ta-dum ta-dum"... "ta-dum ta-dum"...

É uma boa recordação dos meus tempos de criança, naquela fase em que não nos devemos importar com nada, a não ser com os trabalhos escolares e evitar fazer asneiras para não levar com uma repreensão.

Obviamente que agora, passados tantos anos, coisas para me importar é coisa que não me falta. E até mesmo esse barulho que oiço quando vejo um comboio, ou quando viajo num, tem uma associação diferente. Principalmente, quando viajo num, e quando esse não tem o mar imenso como destino. Torna-se num misto de alegria, e ao mesmo tempo de tristeza. É uma partida que se transforma em chegada e vice-versa. Quando eu era miúda, era engraçado ouvir o "ta-dum ta-dum" do comboio porque ia para a praia, e também dava piada ouvi-lo no regresso, já ensonada, porque embora ficasse triste por ter de ir embora para casa, contentava-me com o facto de ter tido um bom dia de sol e brincadeiras, e de ter à espera um belo banho, jantar e sono reconfortantes.

Agora nesta fase em que há muitas coisas com as quais me devo importar, longínquas dos TPC e de me manter longe de sermões maternais, o "ta-dum ta-dum" de ida ainda me consegue arrancar um sorriso, ao passo que o "ta-dum ta-dum" da volta me deixa com um amargo de boca, que nem a tal suculenta bola-de-berlim veraneante me consegue tirar. Perduram banhos, jantares e sonos, claro - mas o reconforto é um pouco estranho. Quase que desejo ficar eternamente a brincar na praia, gozando de um infinito Verão, e de só querer que fique registado o "ta-dum ta-dum" da ida, a ecoar na minha cabeça. Porque fico sem grande vontade de voltar. Ir e voltar, ir e voltar, ir e voltar, nesta fase, é uma chatice. Quando a única coisa que me importa é ficar.

maio 21, 2014

Preciso De Ti

Não te vou andar a dizer que preciso de ti como o ar que respiro, ainda preciso mais de ti do que o ar, embora não possa viver sem respirar. O oxigénio faz falta, ainda mais para mim que sofro de asma, só que... Lá está; tu vens e fazes um papel melhor do que aquele que o oxigénio faz. Esse elemento tão essencial à vida ainda não consegue pôr-me a rir à gargalhada, e nem a propósito - preciso de ti para me rir das tuas piadas e conferir uma melhor disposição aos meus dias. Preciso de ti para saber quais são os melhores lugares para se estar e passar o tempo, mesmo que não saiamos do lugar onde estamos, e constato que todos os lugares são bons, desde que tu lá estejas. Preciso de ti para saber que há um motivo para me levantar se eu cair, sopro os meus joelhos esfolados, lavo a cara e sigo, ainda que eles me ardam. Nunca ouviste dizer que tudo o que arde cura? Preciso de ti para te ouvir tocar piano, quero lá saber se falta o Fá no teclado, a gente inventa e mete outra nota e eu nem vou notar nada... A melodia vai sair tão bem quanto os meus ouvidos a vão querer ouvir. Preciso de ti para poder cheirar um perfume sem ser preciso despejá-lo naquelas tiras de papel que há nas perfumarias, isso é tão enfadonho e impessoal... Preciso de ti pessoalmente, por telefone, fax, e-mail e carta registada sem aviso de recepção. Eu quero receber-te sempre mesmo sem aviso, também foi sem avisar que bateste à minha porta e eu te deixei entrar... Aquela porta que fica no lado mais esquerdo do peito. Preciso de ti para mo encheres de orgulho quando me apercebo que é tão bom precisar de ti. E preciso ainda que me faças um favor: que me deixes continuar a precisar de alguém... E que esse alguém seja sempre a tua pessoa.

maio 05, 2014

Quadra das Luzes

Vamos ser felizes à luz das velas
À luz da madrugada
Das luzes amarelas
Ou da lua prateada.

abril 18, 2014

Imperfeitamente

És um completo imperfeito.
Como diriam algumas, mais feministas:
"És homem e basta!"
Deixas coisas espalhadas pelo chão
Espalhas roupa
E espalhas perfume e charme
Tudo misturado.
Preenches cinzeiros com impaciências diárias
Daquela forma que só tu sabes
E tu sabes que fumar, ainda que pacientemente, mata
E tu matas-me
Olhando-me com esses olhos que são meus
E olhas para outros olhos que não os meus
Mas que remédio tenho eu
Para essa doença chamada ciúme
Que a minha hipocondria permite?
E tu permites-te erguer o teu dedo do meio
Contra aquilo que não te agrada
Ergues a voz, ergues a razão que tens
E não tens vergonha.
Não tens vergonha nenhuma
De me agradar com todos os teus dedos
Sobre a minha pele.
Falas o que queres, o que não queres
E o que te apetece, e o que não te apetece
E apeteces-me sempre...
Seu grande maldito... Bendito sejas!
Mesmo com os cortes que fazes
Ao desfazer a barba.

Por falar nisso, és mesmo um imperfeito.
Mas és completo.
Como diria eu, só uma, e digo:
"És o meu homem".
E bastas-me
Justificando toda a minha feminilidade
De forma perfeita.

E a tua sorte, no meio disto tudo,
É que nunca irei encontrar ninguém como tu.

E a minha sorte também.

fevereiro 12, 2014

Trailer

Para que estar longe quando se pode estar perto?

E empregos há muitos... Amores é que não...

De súbito, ela apanhou o comboio.

"Então, amor? Que fazes aqui?"

"Querido, dei um murro na mesa. Vamos fazer as nossas coisas e não as dos outros. Morreremos para o mundo e renasceremos para o nosso".


Brevemente... Numa vida nossa.

InfinitOito

Oito meses de partidas e chegadas
Tantas vezes atabalhoadas
Trazendo alegrias ao cais
E lágrimas, essas, muito mais...
Oito meses mantidos pela linha
Da tua paciência e da minha
Pela do Bell, do Face e dos carris
Pela luz do teu rosto quando sorris!
Oito meses de algumas discussões
Tão normais de quem tem imperfeições
Porque até os mais fortes sentimentos
São minados por fracos tormentos
Oito meses em que esses nada contam
Quando os nossos corações nos apontam
Um para o outro, no presente e no futuro
Como se houvesse uma bússola de amor puro
Que nos ajuda a seguir, a navegar
Até ao almejado porto chegar
Feito de abençoada união, plenitude
E falhas encimadas por virtude...
Durante esta nossa longa viagem
Que nunca nos percamos da margem
Aquela em que Razão e Emoção
Nos seguem ternamente dando a mão.
Oito meses? Tanto tempo já passou!
E no entanto, parece que parou
Fazendo-me lembrar algo bonito:
Que o oito, deitado, é infinito.

fevereiro 01, 2014

Vales A Pena

Quando penso nos momentos em que me fazes rir

Naqueles em que olhas para os meus olhos com ternura

E falas sem dizer nada

Nas alturas em que partilhamos confidências

E luzes de sol

De lua

De velas 

E de fogo-de-artifício

E atenuamos as nossas pequenas escuridões

Com o fogo de dentro...


Também penso que vales toda a pena.

janeiro 28, 2014

Plenitude

Persianas do quarto fechadas mas não totalmente cerradas - um pouco de sol as perfura. Tu e eu deitados, agarrados um ao outro, timidamente iluminados. Abro os olhos e cheiro-te a pele quente do pescoço. Acaricio-te por debaixo da roupa... Deixo os meus dedos vaguear pelo teu peito, até que eles subitamente se lembram de um caminho situado mais em baixo... Dou-lhes total liberdade para o percorrer... Desafio-te a percorreres também os caminhos do meu corpo, também ele quente e pulsante, sedento do teu toque... E os teus e os meus se vão cruzando, formando um só, que nos há-de levar à plenitude de nós mesmos...

Prece

Que todos os nossos dias sejam dias em que olhemos um para o outro tal como se fosse a primeira vez em que nos olhámos quando já tínhamos a flecha no peito...

dezembro 01, 2013

Feito!

"Não faças nada".

Esta frase costumava sair-te da boca na constância das nossas conversas. À partida, não seria necessária a minha intervenção em certas e determinadas situações. Em nome da tua capacidade de resolução, do teu espírito de estratega, em nome de toda a tua maturidade e sensatez. Assim me tranquilizavas. Assim me tirarias um peso que não era suposto eu carregar sobre os meus ombros.

E eu, respeitando-te, obedecia. Ou pelo menos, tentava... Não respeitando, no fundo, uma inércia forçada. Não querendo obedecer a uma imposta impotência, o impávido e sereno - e (porque não dizê-lo?) incompreensível - cruzar de braços que se faz perante o abalo das nossas estruturas, que levamos tanto tempo a edificar. É justamente aí que algo deve ser feito.

E eu, amando-te, não queria que as tuas desabassem por completo. Não só por ti, mas também por ti. Mesmo que tu, valentemente, me dissesses "não faças nada". Mesmo que tu próprio te voluntariasses a vê-las cair, embora eu julgasse que tal seria pouco provável de acontecer.

Pois bem... Resigno-me então, e não farei nada. Isto porque antes de tu, num acto de quase súplica, me pedires tal coisa, já eu tinha feito todas as coisas. Confesso: fiz, fiz e fiz. Eu fiz o que tinha a fazer.

Lamento pois informar-te, mas já vens tarde. Antes mesmo de te mostrares, já eu te tinha visto, tal como alguém que avista outro alguém seu igual no meio de uma multidão.

Para o teu pedaço de escuridão, eu descortinei uma réstia de luz. Para as amarras da tua dura realidade, eu forjei uma lâmina afiada composta de sonhos. Sonhei-te igualmente meu, sonhei-me tua, sonhei-nos nossos. Criei formas de purificar as tuas torrentes internas de sobressaltos e dúvidas. Quis afugentar os teus fantasmas. Considerei-te minha parte antes de te apartares. Consegui percepcionar o horizonte tão próximo enquanto te debatias com um barco à deriva.

Desculpa, mas fi-lo. É justamente quando se ama que algo deve ser feito. E eu, amando-te, voltaria a fazer tudo de novo. Caso contrário, faria nada. Mas nesse caso, nem estaríamos cá para fazermos o que quer que fosse. Felizmente, cá estamos. Cá estive, cá estou, e cá estarei. A fazer aquilo que seja preciso para te fazer feliz.

novembro 12, 2013

Memorando

1 - Amo-te de forma genuína e verdadeira;
2 - És uma pessoa especial e com grande valor, apesar dos defeitos e de às vezes me tirares do sério;
3 - As más fases não te tiram o dom de teres mudado a minha vida para melhor;
4 - Acredito que tu e eu temos futuro;
5 - Quero preservar-te e ter-te para mim, porque não há ninguém assim tão único;
6 - Se nos mantivermos bem, fortes e unidos, não teremos necessidade de sair do "castelo" (falo por mim);
7 - Temos uma química maravilhosa da qual não quero abdicar nem trocar por outra;
8 - Eu não pertenço às redes sociais nem ao mundo; eu pertenço-te a ti;
9 - A última das minhas intenções para contigo é magoar-te, fazer-te sofrer ou fazer-te sentir inferior;
10 - Se pensares que tudo isto que acabaste de ler é uma grande treta, volta ao ponto 1 até te convenceres que é verdade!