julho 22, 2013

Enologia

C., Especial Reserva 1969.
Cor intensa, textura forte.
Sabor encorpado, que perdura na boca, trazendo consigo o saber do tempo...
Um néctar maduro, a ser consumido sem moderação... 
Volume alcoólico docemente embriagante...
Se Baco fosse mulher, ela o elevaria ao estatuto de Elixir do Prazer Eterno... E nenhuma outra bebida seria permitida no Olimpo...
Vénus enlouqueceria de êxtase com apenas um pequeno cálice...
Seria a água onde ninfas se banhariam...
Até que uma só gota cairia na Terra... Em mim..
Fazendo-me ascender, roubar-te, provar-te e ficar para sempre tua cativa...

À nossa!

julho 21, 2013

Fiança

Querido Futuro

Espero que te encontres bem.

Escrevo-te directamente do Presente. Aproveitei um momento em que ninguém me estava a observar, surripiei um papel e uma caneta... E eis-me a redigir esta carta. Prometo ser-te breve e concisa. Também não quero ser apanhada.

Estou aqui presa, como sabes. Não te consigo precisar há quanto tempo, mas tenho noção que é o tempo suficiente para concluir que não estou bem. Não tenho cuidado de mim ultimamente; confesso que não tenho tido forças para isso. Olho para o espelho e dificilmente me reconheço. Sinto-me envelhecida, disforme, pesada. Vejo o meu cabelo quebradiço, um rosto que está a perder vida... Sofri recentemente uma entorse no pé e, apesar de já ter saído do período de convalescença, não creio que esteja totalmente recuperado. Tem um aspecto feio... Para piorar, há uma dor de dentes que me anda a atormentar...

Como já te apercebeste, o panorama não é nada bom. E todos os dias, a situação se repete: acordo, saio da cela, tomo a primeira refeição do dia, cumpro com as tarefas estipuladas, chega a pausa para almoço, volto às tarefas, pausa para jantar e regresso à cela. A rotina é a mesma de sempre, mecanizada. As tarefas são as mesmas de sempre, as pessoas ao meu redor são as mesmas de sempre. Já para não falar da comida... O meu organismo fica intoxicado, conspurcado com tanta porcaria. Se eu já não a saboreava com prazer, agora com a dor de dentes, muito menos... E nem um protesto me é permitido. Ai de mim que reclame!...

A minha cela vai-se tornando cada vez mais pequena, e o ar cada vez mais viciado e irrespirável. Não tenho companhia, ou ao menos um calendário para ir riscando. Não cheguei a trazer fotos para aqui. Mas trouxe memórias, o que basicamente vai dar ao mesmo, com a diferença de que não são palpáveis. Raras são as vezes em que recebo visitas... Já não suporto estar aqui dentro. Aliás, eu nem sequer suporto estar dentro de mim...

Prometi no início desta carta que te seria breve e concisa. Portanto, não querendo tomar muito mais do teu tempo, deixa-me ir directa ao assunto.

Sei que vais achar isto uma loucura... Mas preciso que me pagues a fiança o mais rapidamente possível. És o único que a poderás pagar. Infelizmente, não estou autorizada a sair em precária. Também não me interessam liberdades condicionais. Quero sair com a plena certeza de que, faça o que fizer (e não farei nada de mal, para que conste, muito pelo contrário), não voltarei a este lugar. Esta cadeia é horrível, acredita!... E eu não mereço cumprir esta pena. Eu não matei ninguém, eu não roubei. Fui injustamente condenada...

Por favor, Futuro... Chega mais cedo. Peço-te! Ajuda-me, porque não aguento mais! Dá-me um sinal... Liberta-me! Estou dependente de ti... E há alguém que também o está... Alguém que está lá fora, à minha espera.

Um beijo

Dina

julho 18, 2013

"Amo-te, Foda-se!" - A Teoria

O termo "foda-se" é uma interjeição de carácter comummente ofensivo, mas que neste contexto surge como um elemento verbal que reforça o sentimento expresso na dita declaração. Ou seja, tem como por objectivo enfatizar o conceito emocional que se pretende declarar, passando do carácter ofensivo para o carácter expansivo. Isto porque o conceito emocional expresso - vulgo "amor" - é por si só dotado de uma dimensão que dificilmente consegue ultrapassar barreiras físicas, neste caso corporais, tendo em conta que a componente física na qual ele é gerado - o coração - é um pequeno músculo. O termo "foda-se" auxilia portanto este pequeno músculo, através da linguagem processada pelo cérebro, a manifestar-se para além de todas as barreiras que possam existir, fazendo inclusive uma espécie de parceria com a componente não-material - vulgo "alma" - que se alimenta do conceito emocional mencionado supra.

julho 12, 2013

Um Mês

Uma rede. Uma página. Um clique. Um comentário. Um pedido. Um "olá". Uma conversa. Um elogio. Uma piada. Uma amizade. Uma tela. Um telefonema. Uma mensagem. Um concerto. Um bilhete. Um comboio. Uma viagem. Uma cais. Uma cidade. Um rio. Uma ponte. Um monumento. Uma rosa. Uma cama. Um olhar. Um sorriso. Um abraço. Um beijo. Uma carícia. Uma palavra. Um almoço. Um jantar. Um "brunch". Uma ceia. Um pôr-do-sol. Um luar. Um jardim. Um passeio. Uma foto. Uma música. Uma dança. Uma bebida. Um banho. Um perfume. Um cigarro. Um desejo. Um horóscopo. Uma roupa. Uma equipa. Uma lista. Uma inspiração. Um texto. Uma janela. Uma festa. Uma madrugada. Um anel. Uma promessa. Um reencontro. Um sonho. Uma realidade.

Um mês. Uma eternidade. Um homem. Um amor.

julho 08, 2013

Em Que Estás A Pensar?

Em que estou a pensar? No teu corpo. A sério. Na bela escultura que ele esconde. E que eu reclamo como sendo minha. Não me julgues por isso... É através dele que eu chego até ti... E quero redescobri-lo e perder-me nele uma e outra e outra vez... Perder-me nos teus olhos, nos teus lábios e na tua pele... Em que estou a pensar mais? Que sinto saudades do teu riso, das tuas piadas, de ver-te fumar... De acariciar o teu cabelo, de mordiscar a tua orelha, do teu perfume... De te pegar na mão à mesa, de te fazer massagens, de me aninhar no teu peito, de te ver a andar de tronco nu pela casa... Saudades dos nossos banhos de imersão, do nosso brunch, dos nossos jantares caseiros, da tua objectiva fotográfica... As minhas unhas cravadas nas tuas costas... A minha cintura a ondular em cima da tua... A minha língua a passear no teu ouvido...

Enquanto não me levo até ti... Trago-te em pensamentos...

julho 02, 2013

Cidade do Tempo Eterno

A Cidade do Tempo Eterno
Que me deste a conhecer
Não tem prédios muito altos
E posso olhar para o céu
As vezes que me apetecer.

A Cidade do Tempo Eterno
Tem ruelas estreitas
Onde nos podemos esconder.
Ficaram com os nossos risos
Com os nossos passos
Sem nenhum de nós saber.

A Cidade do Tempo Eterno
É luminosa e é escura
Calmaria e agitação
De atmosfera pura
Que dá gosto absorver.

A Cidade do Tempo Eterno...
Foi nela que me deixei
E não mais me procurei
Mesmo que o quisesse fazer.

Essa Cidade que amarei
Da qual cativa fiquei
Para não mais te perder.

junho 28, 2013

Foto Tipo Passe

Descobri-a acidentalmente. Uma foto tua, tipo passe, camuflada no pó, escondida dos olhares. Com ar de ser antiga, embora bem conservada. Eras tu, com alguns anos a menos. Uma vintena deles, suponho.
Tinhas um aspecto sereno e compenetrado ao mesmo tempo. Rosto alvo, de feições delicadas e limpas. Usavas fato e gravata na altura, a barba desfeita, um penteado aprumado. Tudo composto para a ocasião do "flash".
Não sei em que contexto a tiraste, mas deixa-me dizer-te que eras incrivelmente bonito. Belo, mesmo. Acredita... Pois, não acreditas. Achas que é tudo uma grandessíssima "tanga" minha. Acha pois o que quiseres e o que bem entenderes. Não me vais conseguir tirar essa opinião do pensamento e, por conseguinte, da minha boca.
Os anos passaram por ti e isso é um facto. Os anos que te trouxeram experiências, etapas, mil e um estados de alma que se resumem ao senti-la nos píncaros da existência suprema ou no mais profundo subsolo de tudo o que é negativo neste mundo. Os anos que te trouxeram pessoas e os respectivos laços, próximos ou não. Que te trouxeram lugares, os de passagem e os fixos. Os anos que fizeram de ti a pessoa que és hoje.
A vintena deles que separa a foto do presente marcaram-te o rosto. Tornaram-no menos alvo; as suas feições fragilizaram-se. Parto do princípio que tu aceitaste tudo isso com naturalidade. E o que se viveu está vivido... Não há como inverter o processo. Eu também não irei para nova... Haverão estragos à minha espera.
Mas também parto do princípio que de alguma forma, ainda estará aí dentro o rapaz que vi na fotografia. A sua energia, sagacidade, curiosidade, as suas ganas de tudo. E, creio eu, algures debaixo de uma forte camada de comodismo, medo, insegurança, descrença, que foste construindo nesses anos todos que passaram. Uma camada terrivelmente grossa que o sufoca, que não o deixa respirar.
Deixa-o submergir. Não o confines a um quadrado de papel. Ele é demasiado tu para estar apenas ali. Não o remetas para uma memória remota do teu ser. O que se viveu está vivido... Mas ainda há mais para viver.
E deixa-me que te diga: continuo a achar-te incrivelmente bonito. Independentemente das vintenas.

junho 27, 2013

Sussurro da Alma

A minha alma sussurra-te ao ouvido: "Gosto de ti, gosto de ti". E tu te mostras incrédulo. Não consegues conceber a ideia de que as almas também sussurram, no seu silêncio tão próprio. Até mesmo a tua sussurra, embora a tua vontade de a calar permaneça. Comigo, isso não resultou. Eu consigo ouvi-la. E respondo de volta: "Também te amo".

junho 22, 2013

Todo Tu

Todo tu. Todas as letras do teu nome, do teu apelido, da tua caligrafia inquieta. Todo o mel que te escorre dos olhos, toda a displicência dos teus lábios, toda a tua postura, todo tu.

Toda a tua expressão. Todos os fios brancos do teu cabelo. Todos os outros fios, que eu agarro, para não te perder à meada. Todas as tuas marcas. Toda a tua barba desfeita ou até mesmo por desfazer. Todo o teu canto da boca a prender mais um cigarro, o primeiro do maço, o último. Todo o fumo que exalas sem pressa. Toda a aura que te envolve. Todo o teu vestir e despir. Principalmente o despir. Todas as privilegiadas gotas de perfume que povoam o teu pescoço. Todo o fervor que te consome a mente, todo o ardor do teu peito, toda a tua raiva, revolta, toda a tua doçura, calma. Todo o teu riso, toda a tua lágrima disfarçada, todo o teu prazer, toda a tua dor. Todo tu.

Todo o contorno da tua cintura. Todas as veias que pulsam nos teus braços. Toda a tua força e fraqueza dissimulada, toda a tua agilidade. Toda a tua verdade. Toda a tua nudez, toda a tua crueza. Toda a tua liberdade.

Todo tu. Que és todo meu.

junho 21, 2013

Costas Nuas

Estou a ver os traços da tua espinha. Tu para aí ocupado, ou a fingir que estás, para não pensares em nada, e nem te apercebes do deleite que me proporcionas. As tuas costas nuas, cenário perfeito para um passeio de unhas. E agora estás de cigarro na boca. "You delicious bastard". Lembras-te? Eu sim. Espero que te lembres disso e muito mais. Embora agora ache que estás muito mais preocupado em arrumar os CD que tens por aí espalhados do que propriamente em lembrares-te de mim. Ou de nós. Mas aqui estou eu, sentada, a contemplar-te, em silêncio. A ver os traços da tua espinha. Aquela que eu acabo por arrepiar cada vez que te toco. Assim espero que seja. Que o meu toque não tenha sido em vão. Que o tenhas guardado algures em ti. Que não o tenhas transferido para mais lugar nenhum. Nem sequer para os CD. Olha que fico ciumenta, e vai na volta agarro neles e desarrumo-os só para depois ter o prazer de te ver a arrumá-los novamente na estante, de costas nuas para mim. Tal como se estivesses a arrumar o caos dos teus dias, dos teus pensamentos, das tuas frases e afirmações. Sei que não estás. Agora os CD, depois o resto. E depois eu, ou talvez não. Ou talvez sim. Ou então eu, e depois o resto. Quanto a mim, já defini as prioridades: primeiro, contemplar-te. Depois, continuar a adorar-te. E por fim, amar-te, a ti e os traços da tua espinha. E que eu saiba disso.

junho 20, 2013

Tu És Tu

Tu és tu. Não podes, nem deves ser mais ninguém a não ser tu. És um exemplar que não mais se repetirá. Portanto usa-te, aproveita-te antes que expires. Permite-te a isso. Permite-te assentar os pés firmemente no ar, cair ao tentares fazê-lo e fazê-lo uma e outra e outra vez. Goza o teu pleno dever de falhar, de estragar tudo, de fazer merda, para que depois possas usufruir do direito de consertar, reconstruir, limpar e recomeçar, mesmo que depois tenhas que falhar de novo. Dizem que errar uma vez é perdoável, errar segunda já é estupidez. Permite-te então seres um grandessíssimo estúpido. Só assim conseguirás ser inteligente. Se estiveres entre aqueles que rastejam pela vida fora, caminha. Se eles caminharem, corre. Se eles correrem, voa. Mas nunca te conformes. Quem segue um rebanho tem um fim marcado, quem foge dele marca um começo.

Tu és tu. E não eles.

junho 19, 2013

Tela

Acordei ainda um pouco estremunhada de sono. Era Domingo. Era Junho, mas não parecia. Era suposto estar sol, mas não estava. E enquanto não estavas comigo, levantei-me. Fui até à varanda da sala. De facto não parecia estarmos em Junho. O céu cobria-se completamente de nuvens, dando um aspecto ainda mais sombrio à cidade que só por si já o é. Sombria, cinzenta, antiga, tal como o mundo lá fora, que observo através da janela.
Reparei que na tua sala havia uma enorme tela, que tapava quase por completo uma das paredes. Estava torta. Fui lá e endireitei-a. Não gosto muito de ver quadros tortos; sempre ouvi dizer que dão azar. E para além disso, convém que os quadros estejam direitos para que se possa apreciá-los convenientemente, sem correr o risco de ficar com um torcicolo...
Não te pedi autorização para a endireitar. Também não estavas ali. Aliás, talvez a tela estivesse torta de propósito - podias gostar mais dela assim. Contudo, eu achei que devia fazê-lo, e que provavelmente nem te importarias.
Mais tarde, olhando com mais atenção, vi que na tela estavam escritas as seguintes palavras:

ESTRUTURA
EQUILIBRADA
REGULAR
NATURAL
SUPORTA
UNE

E naquele momento, tudo fez sentido. Uma estrutura equilibrada, regular e natural, suporta e une. Por isso, se tiveres mais telas que estejam tortas nas tuas paredes, prontifico-me a endireitá-las. A equilibrar pois as tuas estruturas, torná-las naturalmente regulares, tal como deviam ser. E elas te irão suportar. E elas nos irão unir.