setembro 26, 2013

Teologia

- Olha, eu vou-te dizer uma coisa... Posso?

- Sim, claro...

- Eu acho-te um homem incrível e gostava muito que partilhasses a tua vida comigo... Não te sei dizer se ela será curta ou comprida, só Deus sabe, não é? Mas pronto, eu julgo que Ele até tem planeada para ti uma vida longa, e seria interessante se eu a pudesse acompanhar de perto e confirmar que realmente Deus existe... Aliás, basta saber que tu existes para realmente confirmar isso... Mas vou fazer de conta que não sei... Só para ter o prazer de saber que tu existes...

setembro 23, 2013

O Objectivo

Ela perguntou-lhe:

- Quais são os teus objectivos na vida?

Ele pensou um pouco e respondeu:

- Dar a volta ao Mundo... Com um "backpack".

Revelou simplicidade, de facto. Ela questionou-se interiormente se não seria simplicidade a mais. E ele adivinhou-lhe os pensamentos.

- Pensavas que algum objectivo pudesse passar por ti?

- Não propriamente - respondeu ela. Não seria lógico nesta fase, acrescentou mentalmente.

E permitiu-se a si própria ficar tranquila. É que, mais cedo ou mais tarde, ele regressaria a casa.

setembro 22, 2013

Perdura

Beatas de cigarro descansam num cinzeiro improvisado aqui ao lado. O meu olhar descansa no raio de sol vespertino que trespassa a cortina. Segundo dia outonal (nem parece), o primeiro de muitos? Em redor do meu nariz, perduras. Angustia-me pensar que só me falta mais um par de dias para fazer-te perdurar nele, e depois, puf, só daqui a um tempo voltarás e só daqui a um tempo voltarei a assimilar-te através dos meus sentidos. Estive a dormir. Estiveste a dormir. Ainda estás. Eu aqui, com a cabeça preenchida de tudo e ao mesmo tempo de nada. Só quero é que perdures. No meu nariz, na minha boca, nos meus olhos iluminados pelo raio que ainda trespassa a cortina. Desejo secretamente que acordes, que enchas novamente o cinzeiro à tua vontade, e que me permitas olhar então para dentro dos teus, mais uma vez. Tenho paz e plenitude para ir lá buscar. Deixa-a à solta.

setembro 14, 2013

Pertences-me

Quando ponho a tua cara entre as minhas mãos, a agarro com uma força suave e olho bem para dentro dos teus olhos (de preferência sem óculos porque até vejo bem ao perto)... Vejo o significado de tudo, e até mesmo lá ao longe. Uma voz interior, que tem o meu timbre, fala para dentro deles sem tu ouvires. E eles brilham muito ao ouvi-la, e esse brilho volta para mim e me inunda toda por dentro. Ao agarrar-te na cara é como se te estivesse a dizer "tu pertences-me, és um bocado do meu corpo", e é como se te quisesse conservar e evitar que te extingas... Não te apartas de mim... Cada tendão nosso que se rasga traz uma dor insuportável...

setembro 11, 2013

Eutanásia

Entrei no quarto branco, frio, a tresandar a éter. Ali estavas tu, deitado, de olhos fechados, a dormir. Desta vez, resolvi não fazer a habitual vigília.

Todos os dias, eu cumpria com a minha parte - sentava-me a teu lado, observando-te, ora rejubilando com cada sinal de vida que davas, ora entristecendo-me quando parecias estar mais inerte. Infelizmente, o teu estado não era constante. Eu vivia de coração sobressaltado, querendo alcançar o compasso das batidas do teu. Recordo-me de todo o fulgor que possuías quando te conheci, e que me cativou de uma tal forma que eu dava tudo para o alimentar. Até que, a certa altura, tu próprio deixaste de o ter. Desfaleceste perante mim; não tinhas grandes hipóteses de sobreviver. Ao invés de ter esperança do contrário, assumi perante mim a veracidade dos factos: mesmo que voltasses à vida, não serias o mesmo aos meus olhos. 

Tomei a decisão mais sensata que podia - colocar-te em coma induzido, e tentar libertar-me do peso que sentia permanentemente nos ombros. Mergulhei-te, afundei-te até onde pude, até onde uma parte de mim quis, até onde não pudesse mais sentir-te, conter-te... Iniciei então uma nova caminhada, enquanto continuavas ligado a máquinas e tubos. Até que, certo dia, a outra parte de mim quis conter-te de novo. Retirei-te do coma, abristes os olhos... E entretanto o meu pior receio confirmou-se... Afinal, tinhas realmente deixado de ser o mesmo. Não mais deste sinal de verdadeira vida. A cadeira onde eu me sentava a vigiar-te tornou-se demasiado desconfortável.

Por isso, desta vez, foi diferente. Contemplei-te por uma última vez. Agarrei na seringa, determinada. Não pensei muito. Introduzi a agulha afiada no teu braço. Não reagiste. Há quanto tempo estarias realmente inerte?...

O líquido letal tomou conta das tuas veias, da tua carne, da tua alma. Consegui vê-la deixar-te. A alma que eu tanto almejava para comungar com a minha em harmonia eterna.

Não derramei uma lágrima sequer. Estava feito. Ponto final. Só depois é que pensei que poderia haver 1001 razões para viveres, mas apenas uma para morreres, e eu tinha optado justamente por essa.

De súbito, alguém bateu à porta do quarto e abriu-a devagar. Do outro lado, ouvi uma voz:

"Então, já está?"

Reconheci-a e sorri. "Sim... Estou livre", respondi. 

E saí porta fora, abandonando-te naquele quarto, branco e frio, ao qual não voltarei mais. Nunca mais.

Descansa em paz.

setembro 07, 2013

Vontade E Propósito

Enquanto o meu corpo obedecia ao ritmo da música, a minha cabeça obedecia a devaneios povoados de ti... Pequenos pedaços de sonho que ao se fundirem, formam uma vontade e um propósito a serem cumpridos em nome de uma existência que valha a pena neste mundo...

setembro 04, 2013

A Expressão

Não é porque me convém, não é porque está na moda, não é porque até nem tinha nada de interessante para fazer e cá vai disto. Não é baseado só num mero companheirismo, só para dizer que existe um par de passos a acompanhar os meus, ou numa volatilidade carnal...

Não é para justificar isso que essa palavra, ou mais correctamente dizendo, essa expressão, existe. Ela concentra muito mais do que estes aspectos. Três vogais, duas consoantes e um hífen ali pelo meio. E basta. É o que basta para concentrar uma única e irrepetível essência, como se eu tivesse descoberto um novo e desconhecido aroma de perfume, de cuja existência nem sequer a Natureza se apercebeu, e quisesse aprisioná-lo num frasco e ir exalando essa maravilha a toda a hora, todos os dias, até chegar ao ponto em que o meu olfacto - e até mesmo o resto dos meus humildes sentidos - já não iria conseguir sobreviver sem esse aroma...

É nessa expressão que se concentra uma vaga de calor reconfortante, tal como uma chama de lareira num rigoroso Inverno... Uma pulsação de vida, um lampejo de clareza racional... Uma linguagem igual àquela que eu falo, uma onda de frequência semelhante àquela na qual navego... É nela que se concentra a minha posição perante tudo isso e muito mais. Porque há almas que conseguem transbordar um corpo, e alcançar um outro, e retirar dele um pedaço da sua alma, fazer ali uma mistura mágica e tornar esse pedaço ainda maior...

É através das dúvidas que se constroem as certezas. E poderá essa alma duvidar de tudo o quanto este pobre mundo é feito... Mas que ela nunca duvide da certeza veemente que eu tenho de a querer.

E muito menos da tal expressão. Aquela que se escreve com três vogais, duas consoantes e um hífen ali pelo meio.

AMO-TE.

agosto 28, 2013

Sensorial

E antes de recolher vem-me à memória os teus olhos e a tua pele, e os teus olhos e a tua pele, e os teus olhos e a tua pele mais uma vez, e a doçura deles, e a forma como me olham e como me falam e como me despem, e a tua pele mais uma vez, quente e macia, e os meus dedos cravados nela como se não te quisessem deixar fugir, como se quisessem fundir-se nela! É incrível!

Os teus olhos e a tua pele, uma e outra e outra vez.

agosto 27, 2013

Veias

As tuas veias.
Já escrevi tanto sobre o teu corpo...
Mas as tuas veias.

Aproximei-me de ti, estando tu sentado, ocupado. Aproximei-me de ti, na mesma.


Abracei-te pelas costas, tu sentado, mal iluminado pela luz do candeeiro ao lado. A luz iluminava o teu braço, e consequentemente as tuas veias, que dele sobressaíam.

Abracei-te pelas costas, pousei o meu queixo sobre o teu ombro, fiquei a olhar para as tuas veias. A luz do candeeiro ao lado iluminava a minha pulseira, que parece de prata, mas não é. Mas tem o teu nome a dourado. Dizem que o silêncio é de ouro e a palavra de prata. Eu acho que é mais ao contrário.

Abraçando-te, acariciei-te o peito nu, e tu ocupado. Só que estavas ali, de qualquer forma. E eu só pensava: "Porque é que não podes estar sempre?".

E ali as tuas veias, veias pulsantes do teu braço, veias predominantes, onde o calor acelera e o sangue também, quando o teu braço se encontra com o meu. Quando o teu abraço conhece também o calor de todas as veias do meu corpo.

Continuei abraçada a ti, e a pulseira com o teu nome brilhava, e tu brilhavas para dentro de mim, meu amado. O amor dá-nos luz e eu tenho a tua comigo, por mais ocupado que estejas. E eu a admiro e a absorvo porque não encontrei até agora luz igual.

E a luz do candeeiro ao lado iluminava-te. E as tuas veias. Acho que ainda não escrevi tudo sobre o teu corpo. Mas já te escrevi nas minhas.

agosto 20, 2013

Zero Dioptrias

Tu estás para mim como as lentes de contacto estão para os meus olhos: para onde eles se dirigem, elas os acompanham, ajudam-me a ver melhor, principalmente ao longe... E fazem-me sentir mais bonita...

agosto 18, 2013

Crer É Poder

Deixa-me querer-te...
E deixa-me querer querer-te...
Deixa-me querer que me queiras
E crer que não queres mais ninguém...

E deixa-me crer
Que tu crês em nós...

agosto 06, 2013

É Porque

É porque mais ninguém conhece poemas.
É porque mais ninguém me activa a área cerebral ligada à experimentação da felicidade suprema permitida ao ser humano.
É porque mais ninguém se ri assim, ou fala assim.
É porque mais ninguém possui esse grau específico de temperatura corporal tão necessária ao sustento da minha.
É porque mais ninguém se sente e me sente assim dessa forma.
É porque mais ninguém anda fora da caixa, contra a multidão, vendo enquanto outros apenas olham.
É porque mais ninguém se expressa, se rasga, se reconstrói.
É porque mais ninguém é sensatamente louco.
É porque mais ninguém é isto, aquilo ou aqueloutro.
É porque mais ninguém é tudo.

É porque mais ninguém é como tu.