março 04, 2013

A Virgem e os Apóstolos

Na noite da consumação, os Apóstolos aguardavam em redor da mesa. A Virgem entrou na sala, coberta com um manto. Em silêncio o retirou, pondo a descoberto a sua nudez. Subiu para cima da mesa, deitou-se e disse:
"Tomai todos e comei. Isto é o meu corpo, que será entregue a vós".
Foi então que eles a devoraram, famintos de luxúria. Rasgaram-lhe a pele branca, dilaceraram-lhe a carne e beberam do seu sangue. Todos o fizeram, à excepção de um, que se manteve afastado. Perguntaram-lhe:
"Irmão, não quereis vós partilhar deste repasto?"
Ao que o Apóstolo respondeu:
"A carne é apenas carne. Partilhai-a entre vós, pois eu prefiro a alma, e essa é eterna".
E retirou-se, deixando os restantes surpresos. Como não tinham compreendido, zombaram dele e desdenharam-no.
Três dias depois, e sem que ninguém soubesse, a Virgem apareceu à porta de casa do Apóstolo que a tinha negado. Este ficou pasmado ao vê-la inteira, com toda a sua delicada beleza.
"Não temas" - pediu-lhe ela, - " vim cumprir com a Palavra Divina".
Perante o olhar incrédulo do Apóstolo, continuou:
"Resignaste-me diante dos teus semelhantes e por isso eu me consagro a ti, porque aos teus olhos a minha alma vale muito mais do que o meu corpo".
Em verdade Ela vos diz: a matéria pertence a muitos, mas só a merece quem lhe descobre a Essência.

fevereiro 27, 2013

Choque Em Cadeia

Recebeste o condão de amar quem não te ama de volta. Porque essa mesma pessoa ama outra. Como não te achas digno e merecedor de mais ninguém, a não ser da pessoa que o teu coração escolheu (e não tu), não te sentes capaz de te entregar a outrém, tal como a pessoa que escolheste também não se sente capaz de se entregar a ti. É então que aparece uma outra pessoa na tua vida, que recebeu o condão de te amar... E tu lhe fazes o mesmo que te estão a fazer. A pessoa cujo coração te escolheu, e não ela, também se vai sentir como tu te sentes em relação a quem ainda amas. E essa pessoa não conseguirá dar-se a mais ninguém a não ser a ti... E quem a amará depois não terá o seu amor de volta. E assim sucessivamente...

Neste choque em cadeia, não há vítima que escape ilesa. Uns morrem, ainda que lentamente, outros sofrem escoriações mais ou menos graves, consoante a força do embate. É então que chega esse experiente e conceituado doutor chamado Tempo ao local do acidente. Pergunta o que temos, onde sentimos mais dores, faz um diagnóstico completo do nosso estado. Trata das nossas feridas e reanima quem está prestes a sucumbir. 

Este doutor, como tantos outros, não faz milagres, nem nos promete a mais rápida das recuperações. Ficaremos com cicatrizes, mazelas, decerto condicionados com memórias do fatídico acontecimento... Contudo, uma coisa é certa: mais cedo ou mais tarde, e graças a ele, estaremos prontos para nos fazermos à estrada de novo... Visto que o itinerário que percorremos não nos levou ao destino que mais procurávamos (muito pelo contrário...), ficaremos inclusive com vontade de conhecer um diferente...

E dessa vez, será sem sofrer um único arranhão.

fevereiro 18, 2013

Meditando...

Conheço uma pessoa que costumava dizer que há mais gente a querer o nosso mal do que o nosso bem. Eu não gosto de pensar de uma forma assim tão radical. Ainda me resta uma esperançazinha de que há gente boa neste mundo, com boas intenções, mesmo que não seja propriamente santa, porque hoje em dia, santos só mesmo em forma de estátuas. E talvez esta minha falta de radicalidade de pensamento seja a culpada de eu levar com tantos golpes, pontapés e murros no estômago, pois as minhas defesas são demasiado fracas; o aço do escudo derrete, o muro desmorona-se, a espada parte-se. E lá vou eu toda, coração na dianteira e cérebro na rectaguarda, para o que der e vier. Eu confio, eu entrego, eu dou, eu sou, eu faço, eu aconteço, eu aproveito, eu sugo as horas e os minutos e os segundos e os milésimos de segundo até á última gota. Eu não me importo com os ferimentos que me vão vincar o corpo no final da batalha. A minha intuição guerreira diz não, mas eu digo sim. E eis senão quando perco o equilíbrio na derradeira estocada. Vou contra o chão, trespassada e rasgada... Mais uma vez. E ali fico prostrada, a esvair-me num sangue que já pouco me corre nas veias. Faço o luto de mim própria, das minhas atitudes inconsequentes, do querer demais de quem nada me pode dar a não ser dores daquelas bem fundas que me corroem por dentro. Fico minada e envenenada. Até que de súbito, me levanto. Ergo mais uma vez o escudo derretido, volto a empilhar as pedras esburacadas, levanto a espada só com metade da lâmina... E preparo-me para mais um embate. O chão lá estará para me amparar. Somente o chão.

fevereiro 13, 2013

A Lógica

- Só gostava de saber o que vês em mim que não vês nos outros...
- E eu gostava de saber também o que vês nela que não vês em mim...
- Isso são coisas que não se explicam...
- Ora aí está.

fevereiro 12, 2013

Final

Quando eu partir
Irei com certeza recordar
Tudo o que de bom aconteceu entre nós...
Mas também irei lamentar
Tudo o que de melhor poderia ter acontecido...

As manhãs que poderíamos ter aproveitado...
As tardes que poderíamos ter passado...
As noites que poderíamos ter vivido...

Aquela paisagem que não vimos...
A mesa onde não jantámos...
O quarto onde não dormimos...

E todas essas sensações
E emoções
E ilusões
Escapar-se-ão ilesas dos meus dedos
Desvanecendo-se neste corpo
Que um dia sentiu os teus medos
Neste corpo sem vida
Aquela que me deste e que ao mesmo tempo tiraste...

Quando tu partires
Irás com certeza recordar
Quem fizeste partir antes...

janeiro 31, 2013

A Persistência

- Queres namorar comigo?
- Porque perguntas isso?
- Porque quero que respondas.
- Ok... A minha resposta é não.
Passados 10 minutos:
- Queres namorar comigo?
- Porque que é que estás a perguntar isso de novo?
- Porque podias ter mudado de ideias entretanto...
- Achas que mudei?... A minha resposta é a mesma de há bocado.
- Ok... Realmente 10 minutos é pouco tempo. Eu volto a perguntar-te amanhã.
- Sim, mas a minha resposta não mudará.
- Que curioso... O que sinto por ti também não.

janeiro 27, 2013

Ocaso

O sol no horizonte descia
E eu, muito atenta, o admirava
Enquanto ele findava mais um dia
As suas cores de fogo transbordava.

Perguntou-me, num sussurro, se haveria
Mais alguém que me acompanhasse
A observar toda aquela magia
Como se de um espectáculo se tratasse.

Respondi-lhe tristemente que não;
Toda a gente andava ocupada
Especialmente alguém que o coração
Escolheu como eterna morada...

E eis que o sol então me acarinha:
"Amanhã de novo cá estarei...
Pode ser que não estejas sozinha
E espectáculo maior eu vos darei..."

Assim sendo eu te quero convidar
A tornares-te fiel espectador
De um dia que poderá acabar
Com um belo e diferente esplendor...

Um pôr-do-sol é sempre belo, não minto
Mas não queiras sequer comparar...
És tu que o tornas belo, é o que sinto
Quando me junto a ti para o contemplar...

janeiro 10, 2013

Conexão

Aquilo que a boca esconde, os olhos mostram.

Aquilo que os olhos negam, a mente contempla.

Aquilo que a mente esquece, o coração lembra.

Aquilo que o coração tem, a mão perpetua...

janeiro 07, 2013

Novo Ano

"Oi bom dia. Nunca mais deste notícias, mas espero que estejas bem e que as coisas estejam a andar. Fico um pouco triste por não me teres dito nada, porque não sei se mereço assim tanto silêncio da tua parte... Tendo em conta o que fiz e faço por ti, mesmo sendo só uma amiga... Penso em ti todos os dias. Tenho saudades de te ver, falar e estar contigo... Mas pronto, ambos sabemos que não te posso obrigar a nada. Não sei que rumo vais querer tomar este ano, mas lembra-te que tens aqui um coração pronto a receber-te. Quer dizer, no fundo tu já lá moras... Porque eu te amo. Beijos."

Foi com esta longa mensagem, de sentidas palavras, que transmiti o meu estado de alma ao X, esta manhã. Lágrimas correram pelo meu rosto. Lágrimas de saudade, amor e sobretudo impotência por não conseguir fazer com que ele dê sinal de vida... A sua ausência consome-me!...

novembro 20, 2012

(Outro excerto...)

Disse-lhe então a Fada:
- Tu tens o teu poder, ele está dentro de ti, eu sei. Contudo não deves deixar que ele te faça subestimar aquilo que ainda não podes compreender. Pois o caminho que hás-de percorrer ainda é longo.
- Quanto tempo julgas que demorarei? - questionou o Mago.
- Aquele que o teu coração permitir...


in "A Fada E O Mago"

novembro 19, 2012

Receita Infalível II

Peguei num kg de amizade pura, juntei-lhe 3 chávenas bem cheias de carinho, misturei tudo com um punhado de apoio e força, moldei em forma de beijo grande e levei ao forno do coração... Espero que disfrutes da receita!

novembro 03, 2012

Olhei

Olhei para trás e vi angústia...
Olhei para o lado e vi indiferença...
Olhei para cima e vi decepção...
Olhei para baixo e vi cansaço...
Olhei para a frente...
E vi-te.