maio 05, 2015

Fome

Entre mim e a fome
A diferença é nula.

A fome não faz falta.
Quando sentida, se preenche sempre
Quanto mais não seja com algo que a cale por breves minutos
Com qualquer coisa que aconchegue. Que a tranquilize.

Sinto que faço tanta falta quanto ela.

A fome não faz falta nenhuma.
Seja ela qual for.

Eu não te faço falta
Mas tu fazes-me.
Fazes-me crer que entre mim e a minha fome
A diferença é tudo.

A diferença és tu.

abril 24, 2015

Carta A Um Anjo

Olá. Não sei se me és da guarda, ou a que legião pertences. Só sei que existes, como ser alado, etéreo, que provavelmente em tempos foi humano.

Não te conheço, somente como mensageiro de uma entidade à qual uns chamam de Deus. Terás decerto feito parte desses. E agora, ex-humano, O serves e me observas aí de cima, assistindo aos desígnios que são facultados a estes pedaços de matéria comandados de alma. Eu não fujo à regra.

Sei também que melhor do que ninguém, conheces o Amor e a Morte. Representas ambos, no fundo, isolada e simultaneamente ao mesmo tempo. O arquétipo de ti construído tanto pode atirar flechas aos corações como lanças às bestas. Prenuncias pois o começo de algo e também o seu fim. De facto, a cada Cristo o seu Judas...

Certo dia Oscar Wilde escreveu: "O mistério do amor é maior que o mistério da morte". Lá terá tido as suas razões. No fundo, a morte não é mistério nenhum... Mais cedo ou mais tarde, todos a iremos encontrar. O mesmo não se pode dizer do amor. De qualquer modo, se encontrares tal vulto da literatura por aí, diz-lhe que isto se pode equiparar, sobretudo nesta língua tão nobre que é a lusitana. Senão, repara:

AMOR
A MORTE
AMOR-TE
AMO-TE

Simples, não é? E tão aglutinado... Quase que me faz lembrar aquela frase que o caro Oscar decerto não terá escrito, mas outro alguém, certamente: "Amar-te-ei até ao fim dos meus dias".

Dá que pensar... Como sabes, anjo (só tu sabes, e sobretudo quem serves), o fim dos meus dias pode acontecer daqui a muitos anos. Ou meses. Ou amanhã. Até pode ser agora, se eu quiser. Na verdade, se Deus quiser. No entanto é engraçado constatar que, para o fim dos meus dias, basta haver um só dia; já para amar, nenhum é suficiente.

Tu presencias os dias que passam. E cada dia que passa, já se tornou ontem. Passado, portanto. Só que amar, por sua vez, "não se conjuga no passado - ou se ama para sempre, ou então aquele amor sentido não era de verdade".

Acredita que nunca esta expressão vingou tanto. Entretanto tenho o sol a bater-me nas costas e finjo que és tu que me abraças... Estarás porventura a responder-me? É que duvido que o sol me ame. O sol dá apenas luz e calor, não vai nestas filosofias.

Não te importuno mais, anjo. Foi só um desabafo. Afinal, o Amor e a Morte continuarão de mãos dadas, num infinito passeio, pisando um pavimento mundano, tornando-o aos poucos celestial. Para o bem e para o mal.

Porque afinal, ao amarmos, morre uma parte de nós mesmos para renascer na outra. Assim sendo, nos tornamos nos anjos (ou até nos diabos) uns dos outros...

Saudações!

abril 18, 2015

Alguém

Pode haver alguém que te queira mais do que eu
Louca e serenamente ao mesmo tempo
Que te serene melhor, quando mais precisas
E que apare mais precisamente os teus medos
E inseguranças
Pode haver alguém que te segure a mão
De uma forma mais terna
Da mesma forma que te toca no rosto
Ou te olha enquanto dormes
Pode haver alguém que, ao contrário de mim
Queira partilhar do teu cigarro
Dos teus actos insanos
Que entenda perfeitamente aquela letra daquela música
Ao contrário de mim
Que te entenda no maior dos silêncios
Sem te interromper ou questionar demasiado
Pode haver alguém que saiba meter-se no seu devido lugar
No teu também
E meter-se em atalhos aconselhados
Em vez de complicar
Pode haver alguém a quem não precises de dar conselhos

Pode haver alguém que te ame tão mais
Tão mais do que eu
Que até morra por ti
E que só não morre
Porque na verdade ainda está para nascer.

março 21, 2015

Na Ausência

O meu cérebro e coração são o teu nome em letras garrafais. E por falar em letras garrafais... Não preciso realmente de ler jornais... Tu aconteces-me todos os dias, mesmo na ausência. E embora cada dia que passe é mais um dia em que não estou contigo, também é menos um dia que falta para estar.

Entretanto me farto do corpo e da vida. Menos de ti. Restas-me ainda para me resgatar.

março 20, 2015

Reflexo

Amo-te. Considero-te meu... Meu puto de merda. És tudo aquilo que desdenho num homem. E quanto mais desdenho, mais quero comprar. Estou cansada de ti. Cansada de olhar só para as tuas fotos, queria que estivesses aqui comigo, adoro o teu corpo, imagino-me a gerar um filho teu. Queres ter um filho meu? Não queres nada, ó cabrão. O que tu queres sei eu. E eu quero-te, quero-te tanto... Afinal foi contigo que eu descobri o amor... Por isso é que o meu ódio por ti está nos píncaros, meu lindo. Deixa-me em paz e anda cá, vamos conversar, vamos fazer amor, eu vou estar bem para ti. Eu marquei-te no coração e no lábio, com beijos intensos, "you're such a good kisser", um falso, um mentiroso. Vai-te foder. Não preciso disto. Preciso que coloques a mão sobre mim e me acalmes a dor. Desculpa, mas eu sou uma otária. Desculpa, mas és um otário. Não atinges, não percebes. Não sabes de nada... Pelo menos sabes que eu te amo, não sabes? Eu é que não tenho paciência para estas coisas. Não percebo nada de relações. E tu tens tanta paciência... Não tens culpa nenhuma. Eu é que sou a maluca. Eu é que sou a burra. Não sejas burro, esquece-me, segue em frente, faz-te à vida. Não me faças perguntas, seu bruxo. Responde-me só: estás comigo? Eu estou contigo, eu guardo-me para ti, eu espero. Eu espero é que desapareças e que não me ligues mais. Xau. Eu já te ligo. Então, não dizes nada? Estás tão ausente... Mas o que é esta merda? És tu, és uma merda que aí andas. E eu ando aqui sozinha e cá me safo e ando bem... A pensar em ti. Tenho saudades tuas. Estou aqui fodida. Estou aqui na boa. On. Off. On. Off. On. Off. Off. Off. Off. Off.............On. On. On. On. Offonoffonoffonoffffffffffffoda-se!!! Acaba com esse botão!!!

março 05, 2015

Contemplação

Olhei-te, enquanto olhavas para a janela. Durante largos minutos, em silêncio. Nesses largos minutos, em que me permiti olhar-te mais uma vez de uma forma da qual tu pouco te apercebes, podia ter-te dito muita coisa. Preferi manter-me calada, a olhar-te apenas. Mesmo que falasse, não prestarias lá muita atenção. Notei que estavas demasiado compenetrado nos teus pensamentos. Não me atrevi a adivinhá-los. Talvez estivesses a pensar, olhando para a janela, que o mundo não te estava a olhar de volta. Talvez estivesses a pensar nos dias que estão para vir. Ou a querer suspendê-los. Ou nas amarguras da vida. E a vontade de os suspender talvez viesse delas.

O que pensavas, eu não sei. Só sei que era capaz de ficar mais do que aqueles minutos a olhar para ti, em silêncio. Na luz ténue de um céu cinzento reflectida nos teus olhos, na tua expressão serena, na pele que denuncia que já muito passou por ti. A contemplar o teu perfil seráfico, os teus traços, que eu acho tão bonitos. Tu não acreditas, desacreditas os meus elogios, julgas ridículo eu te julgar dessa forma. Ridículo seria eu não te olhar. Porque acho que olhar-te, em silêncio, independentemente da quantidade de minutos que eu dispenso para o fazer, é das formas mais simples de te amar. 

E possa eu olhar-te sempre... Mesmo que não me olhes de volta, como o mundo lá fora, que desconhece os teus traços, inclusive os de dentro. Mesmo que não te apercebas que eu estou ali, bem perto. Mesmo que continues a negar aquilo que eu vejo em ti. Mesmo que não haja janelas.

janeiro 26, 2015

Proeza

Peço perdão por ser puxada ao sentimento que aqui se confunde com pensamento... Mas haverá algo melhor do que partilhar uma grossa e confortável camada de cobertores, como se de um invólucro inviolável se tratasse, com aquela alma que mais e absolutamente entranhou na nossa, enquanto lá fora chove e/ou faz frio como é costume no mundo?

Há e haverá, sim... Saber que há uma alma que mais e absolutamente entranha na nossa. E que não preciso de mais nada para a desejar a não ser, simplesmente, contemplar de mansinho tamanha proeza.

dezembro 28, 2014

De Rajada

Queres falar?
Se não quiseres eu não me importo. Ouvir a tua respiração também é importante. Conversas de silêncio são igualmente ternas e agradáveis.
E quantas vezes em silêncio eu não sorria para mim? E quando não sorria, tapava a cara com os cabelos ou com as mãos, cabeça encostada a pedra ou a vidro.
Encostava-me ao teu peito e tudo era perfeito. Olhava a luz do candeeiro ali ao lado. Olhava-te enquanto te olhavas por dentro.
Dentro da gaveta ainda guardo aquele lenço. Sinto-lhe o cheiro e disparo, transporto-me nele até aos momentos em que o tinha tão, mas tão perto. Tinha-te.
Tenho o peito apertado. O meu coração sofre de gigantismo. Inspiro com um pouco de dificuldade. Expiro tudo que se balança na ténue linha que separa o ser do estar.
Sou à espera que queiras falar. Ou pelo menos, que me oiças respirar-te.

dezembro 27, 2014

Calçada

As pedras da calçada
Me gravam os passos
E entre espaços as vejo

Vou no encalço
Do compasso
Que elas dão à minha calma
À minha pressa
Ao pensamento encadeado pelos sons
Os da rua e os que escolho para ouvir

As pedras da calçada
Me gravam os passos
E entre espaços as choro.

dezembro 11, 2014

Parabéns

Hoje é o meu aniversário!

Quem me conhece minimamente bem vai pensar que esta rapariga só pode estar maluca, que eu saiba ela fez anos há 3 meses, a não ser que se ache no direito de os fazer duas vezes, como só uma pessoa louca se acharia... Nada disso. Hoje é o meu aniversário, e não porque eu tenha nascido neste dia, mas sim porque metade de mim o fez.

Por isso, hoje acordei a pensar nessa metade e na melhor forma de a homenagear. Pensei em proporcionar-lhe uma grande festa-surpresa, com balões, "confettis" e tudo, embora ela não fosse achar muita piada... Não, é mentira. Não pensei em nada disso. Justamente porque ela não iria achar piada; aliás, do pouquíssimo muito que a conheço, arrisco a dizer que não acharia piada nenhuma. Portanto, nem seria por aí. Lembrei-me então que, no nosso dia, aqueles que fazem parte de nós - os verdadeiros - acabam de algum modo por nos agradecer pelo facto de os mantermos cá dentro.

Com efeito veio-me à cabeça um determinado conjunto de olhares - os mais belos e ternos que alguma vez me foram lançados - e agradecer à tal minha metade por isso; é que foi ela que mo deu. Pelas tertúlias à mesa em que as nossas bocas só diziam disparates e pelas outras em que as nossas bocas falavam um idioma sem tradução, que só nós entendíamos. Pela nudez da verdade e da pele...

Pensei também em agradecer-lhe por se ter tornado na mais perfeita inspiração que inúmeras vezes me guiou a caneta e os sonhos. Por me ter suscitado algum interesse em batidas musicais oitentistas e nas batidas do meu próprio coração... Já para não falar nos "flashes" de fotografias captadas ao meu corpo e também ao meu sentir. Fez-me inclusive dançar com o sol e pegar na lua com a mão! Pensei em agradecer-lhe por tudo isso e tanto mais... Mas principalmente por se ter tornado na metade de mim que me faltava.

Hoje é o teu aniversário. Não tenho festa planeada, nem bolo com velas, nem presentes, nem coisas especiais e lamechas tipo bilhetinhos e pétalas de flores. Tenho apenas esta homenagem de parabéns pensada e sobretudo sentida, e é com ela que te celebro. Obrigada. Apesar dos pesares, da soma que o tempo nos faz à vida e da subtracção que ela depois nos vem cobrar, da volatilidade humana e da humanidade que é errar, minha metade és tu... E eu te amo por inteiro. Ipsis verbis.

novembro 08, 2014

Da Minha Janela

Da minha janela ouvia o sino a repicar
Gaivotas recitando odes às nuvens
E aos telhados
Ruídos de mecânica e de crianças a brincar
Os comboios a saudar o cais.

Da minha janela sentia
A brisa do rio
Tons de ocre e de pedra a explodir por todo o lado
O cheiro de um almoço alheio e de roupa lavada
O burburinho das gentes e dos viajantes.

O sino deixou de dar as horas...
Ninguém tem tempo para o escutar.
As nuvens não gostam de cabos eléctricos...
E as crianças passaram a ser adultos
Que preferem os automóveis.

Brisa, só mesmo a do vento
Que disfarça o cheiro de roupa e de comida pronta.
Há outras cores e outras gentes
Mas nenhuma delas viaja.

Da minha janela... Eu sorria.

novembro 04, 2014

Comunicado

Não sou pessoa de esconder emoções. Nunca fui, nem nunca serei. Quando tiver que rir, rio; quando tiver que chorar, choro. Seja onde for. Quantas e quantas vezes já não o fiz nos transportes, em pleno horário de trabalho ou até junto de pessoas perante as quais supostamente não devia?

E neste momento não consigo esconder isto: é incrível como o simples facto de fazer coisas tão naturais tais como tomar banho ou fazer a cama se tornou tão doloroso. Que se antes adormecer era coisa que não me doía, agora custa imenso... Vem-me à cabeça uma certa sensação de embate que sofri (quem já foi atropelado - e sobreviveu, claro... - sabe do que falo) e do corpo a colapsar-se todo. E acordo justamente com isso na cabeça.

Quando se assume um compromisso, há que cumpri-lo. E eu assumi um. O de estar perto, estar junto, acontecesse o que acontecesse. Dissessem o que dissessem; a vida é minha e eu é que decido o que fazer com ela. O compromisso de ajudar e cuidar, no que fosse preciso. E somente o meu lado de dentro é que sabe o quão veemente esse compromisso foi assumido, de forma fidedigna e devota. Nunca procurei mais ninguém e recusei-me a dar um ínfimo de segundo da minha vida a quem realmente não fazia por merecê-lo. Reservei todo o meu tempo e energia para aquilo ao qual me comprometi. E assim sendo, fui negando aquilo que se estava a tornar tão evidente à minha volta... Que não há duas pessoas iguais, mesmo que sintam algo igual, e que portanto a realidade não é vista e vivida da mesma forma. Que por vezes aquilo que mais queremos não é o melhor para nós... Mas eu, dentro do meu ovo de esperança e positivismo, daqueles bem opacos, acreditava que havia outrém com um lado de dentro idêntico ao meu, embora não o mostrasse.

E assim me fui mantendo, mas ao mesmo tempo um misto de medo, ansiedade e insegurança ia rachando devagarinho a casca do ovo, e eu, assustada, lá ia tapando as fissuras da melhor forma que podia... Até ao ponto em que a casca se partiu, definitivamente... E o que vi no exterior não foi bonito. Já não havia forma de recuperar o tal ovo, portanto tive que me defender de uma espécie de monstruosidade que se formou ao meu redor.

Cometi erros? Claro. E posso ter demorado tempo a assumi-los, mas ao menos assumi. Mas não fiz nada, nada mesmo, que se compare aos que foram cometidos contra mim. E sobretudo, contra o tal compromisso. Que era tudo. Bom, no fim de contas, quem aponta o dedo a alguém, tem logo 3 a apontar para si próprio. Também não estou imune a isso. Por isso é que até prefiro manter a mão fechada, e deixar que o tal karma, esse grande mestre, trate do resto. E que não demore tanto quanto a minha vida presente. Ou melhor, ausente.