março 15, 2016

As Histórias de Amor

As histórias que se dizem de amor não são perfeitas. Aliás, as verdadeiras são aquelas que não são perfeitas. Não se ilustram com capas de revistas nem com as dos livros do Nicholas Sparks. As histórias às quais se pode chamar de amor têm ramelas e maquilhagem esborratada às 3 da manhã. Vestem-se com aquele pijama larguíssimo de tão velho, mas tão confortável e não deixam de ser grandes histórias. Nelas há o “vai-te foder, mas antes disso beija-me” e não há melhor abrigo contra o frio, a chuva e o medo do que a curva que vai desde o pescoço até ao ombro do(a) co-autor(a). Nelas também se chora, escorregando as costas contra a parede até ao chão frio da cozinha… Fílmico? Não, histórico! E há nódoas de ketchup ou de mostarda ou de maionese nos cantos da boca, prontamente eliminadas com um guardanapo em forma de lábios… Fazem-se com palavras desligadas e sons despertos, com água a correr e terra entre os dedos. Cheiram a álcool, a tabaco, a colónia, a roupa lavada, a sexo. As histórias de amor escrevem-se com céu e inferno… Tatuam-se com sangue por dentro. E nunca há tinta que chegue para as registar como deve ser nas folhas do tempo.

fevereiro 24, 2016

Três

Quero amar-te sempre e tanto e ser-te amada mais ainda


Fazer da arte toda a vida já que vives nela e ela te vive em cada traço


Olhar-me ao teu espelho e dizer: "quanto prazer em conhecer-me!"

fevereiro 13, 2016

Flashback

Enquanto oiço música no jardim, enquanto queimo tempo.

Aquela que fala em jogos de vídeo, em que o vídeo é um conjunto de retalhos, de flashbacks.

E também faço os flashbacks na minha cabeça.

A ponte, o que se vê através dela, o jardim de sol, pavões e onde se joga vólei. Teatro e dança a nu, o levantar da mesa para um beijo, a objectiva a captar fulgores. As conversas de circo, as tertúlias e as ousadias. O olhar para mim, o calorzinho bom, a nicotina pensativa, o contorno do ombro. Eu sei lá que mais.

Por acaso até sei e não sou a única.

janeiro 10, 2016

Chiclas

A pastilha elástica, consumível de culto em tempos imortalizado num hit musical português, existe desde que os Homens se conhecem e se tratam por tu.

Vestida com invólucros brilhantes e apelativos, de fácil abertura, vende-se em diferentes tamanhos, cores e sabores. Algumas se escondem atrás de chupa-chupas e gelados, como que a quererem tornar-se difíceis de alcançar, e ver a deliciosa missão de se chegar a elas ser cumprida dá-lhes um certo gozo.

Tornou-se moda essa coisa das pastilhas elásticas sem açúcar - há que zelar pela saúde, principalmente a dentária -, no entanto em sua substituição prevalecem os artificiais edulcorantes, que ainda conseguem ser piores. Mesmo assim, isso não tira o interesse que se nutre por elas, essas gominhas que adoram passear em cavidades bucais, que as preenchem e se tornam tão flexíveis que dá para soprar e fazer balões daqueles que rebentam na cara, à laia de bomba inofensiva (ou até dentro da boca, conforme a apetência). Basta saber usar a língua.

Enquanto se vai mascando não se vai pensando em nada, reduz-se o stress do dia-a-dia e refresca-se o hálito. Vai-se mascando por vício, vai-se mascando para evitar privações de outros vícios. Vai-se mascando até elas endurecerem e se tornarem desagradáveis ao paladar, que entretanto se alegrava de tão adocicado… Chega portanto a hora de as cuspir e deitar fora, de as trocar por novas, remetendo-as numa questão de minutos à sua efemeridade, quer seja num falsamente digno caixote do lixo, quer seja na valeta de uma rua.

Ninguém disse que as pastilhas elásticas não tinham o direito a existir. Mas há que convir que tendo o estômago cheio, mais cedo ou mais tarde elas acabam por criar uma certa sensação de fome. Por outro lado, se estiver vazio, não são elas que a vão matar. E se há coisa que a fome não gosta, é de ser enganada.

janeiro 09, 2016

Do Lado De Dentro

Às vezes de noite, quando me torno uma mera passageira de um carro, autocarro ou comboio, gosto de olhar para a janela e, sem perturbar ninguém, entrar nas janelas que vou encontrando, cujas luzes acesas pontilham casas e prédios e estabelecimentos, apenas imaginando quem ali poderá estar e com quem, de onde veio, o que estará a fazer, como vive, o que vive.

Imagino que por detrás daquela janela está uma cozinha onde uma mulher deita água salgada para a panela enquanto está a fazer o jantar, mexendo com a colher de pau de forma mecanizada, sem olhar para a noite reluzente que se faz sentir no exterior. Na do prédio ao lado, cuja luz é mais suave e rosada, deve haver com certeza uma criança a dormir o seu soninho descansado, rodeada pelo seu edredão colorido, de barriga aconchegada, alheia à fome, à guerra e a essas coisas dos grandes (ou não será dos muito pequenos?...). Apenas os desenhos animados que viu lhe ocupam os sonhos, e mal sabe ela que existe água salgada, porque embora já tenha visto o mar mais do que uma vez, nunca o provou.

Cortinas ondulam no primeiro andar de uma vivenda, vultos sobressaem, ocorre ali decerto uma grande jantarada, daquelas entre amigos, cheias de risadas e piadas feitas sobre os tempos em que eram todos uns rebeldes, uns malucos, ou então alguém se levantou da mesa sem pedir licença e foi chorar para o quarto, prestes a pegar numa caneta e a despejar com raiva o ácido que lhe corrói por dentro, eles vão-se arrepender todos, amanhã são eles que vão levar com isto, pois eu já não estarei cá.

Mas não só de luzes se fazem as noites (e os dias); vão aparecendo muitas janelas escuras, apagadas, de divisões que não se vislumbram, de gente que já dorme como a criança ou que até está acordada no meio do escuro, a escutar o silêncio, a querer recobrar uma força que se perdeu. Ou então já ninguém lá mora, foi para fora, fechou portas e saiu em busca de pertencer a outras janelas que entretanto se abriram.

Também há outras que se vão apagando à medida que as avisto, já são horas de recolher ou foram para a sala ver um filme, uma série, um qualquer programa a roçar o ridículo, e as que ficam denunciam projectos que se estendem até tarde, alguém que não pregou olho e pegou num livro, um casal que até gosta de fazer amor assim porque conseguem olhar melhor nos olhos um do outro enquanto se consomem lascivamente.

Do lado de fora assisto a todas estas histórias de supostas vidas que eu não conheço e provavelmente nunca conhecerei, feitas de conforto e miséria, cansaços e esperanças, retendo que eu poderia ter nascido e construído ali a minha história, aquela poderia ter sido a minha família... Que aquela poderia ter sido a minha janela.

No decorrer deste meu exercício divagante, não passo pela tua, por isso não vejo se está acesa ou apagada. Mas se passasse diria que se estivesse lá, estaria a ver-me naquele momento... Do lado de dentro.

dezembro 28, 2015

Dor & Prazer

Prazer e dor. Um ciclo.

Prazer. Um homem e uma mulher conhecem-se, exploram-se, envolvem-se. Dor. Os primeiros desentendimentos, os choques, os arrependimentos. Prazer. Um ser é concebido com o corpo e com a alma. Dor. A mãe sofre para o apresentar ao mundo, o pai sofre com ela entrando num ao qual vai ter que se habituar. Prazer. Vê-lo(a) nos braços. Dor. As varicelas, as otites e os desassossegos nocturnos. Prazer. Assistir ao crescimento, à evolução. Dor. Saber que um dia ele/ela vai querer usar as suas asas para voar...

Prazer. Ter amigos, alguém cujo sangue se assemelha ao que nos corre nas veias. Dor. Ver esse sangue a escorrer-nos nas costas após uma punhalada. Prazer. Encontrar novos amigos que se dispõem a fazer o curativo. Dor. Quando o sangue deixa de escorrer nas veias de parte a parte.

Prazer. Um novo emprego, perspectivas renovadas, vontade de vencer. Dor. As despromoções, as intrigas, algumas punhaladas também.

Prazer. Termos o mimo e o colo dos nossos pais. Dor. Saber que eles não duram para sempre.

Dor e prazer. Um ciclo.

Como se daria valor ao céu se não existisse um inferno?

dezembro 08, 2015

Soltas

Peguei em letras e juntei-as.

Já estou farta de pedras.

Elas não fazem o caminho; é o ir

Que nos leva sempre a algum lugar

Nem que seja apenas com a roupa do corpo

E a alma despida

Porque não é o passado que está à nossa espera.

É o ir, e eu vou…

Eu vou atrás daquilo que me faz feliz...

Por isso, não te admires

Se olhares para trás e eu lá estiver...

Prestes a encontrar-te, ainda que pela milésima vez.

E pela milésima vez, eu te direi

Tal como junto palavras

Que quando se encontra aquele amor

Que é sentido contra a volatilidade do tempo

Contra a mudança dos espaços

Contra as fagulhas feitas de opiniões alheias

E contra o rumo falso que elas tomam...

É para sempre, mesmo!!!

Eu senti-o... Eu sinto-o…

Eu o sentirei enquanto o sempre durar...

E o sempre dura para sempre.

Tal como a verdade…

Se é verdadeira… Então é eterna.

E é tudo. Porque não pode ser outra coisa.

Por falar nisto…

Peguei numa expressão e a dissequei

Descobrindo sem surpresa

Que não é mais do que as iniciais de

Acho Maravilhoso O Teu Existir.

julho 20, 2015

Aperto

Um aperto.
Foste roubada e tens que engolir em seco para não dar parte de fraca.
Só não consegues engolir o orgulho, que te sobe garganta acima como um vómito
E que te suja.
Sentes que alguém que não conheces chegou e desarrumou tudo
A redoma onde estava a jóia partiu-se e agora ela está ali exposta
Aos olhos e mãos de toda a gente.
Olhas para cima à espera que as estrelas
Ainda estejam no mesmo sítio.

junho 12, 2015

Estamos!

Lembro-me tão bem como se fosse ontem.

Era de noite, era Verão, ambos em casa, sentados no sofá, com o portátil no colo, conectados na rede que nos havia conectado nesse mesmo ano.

“ - Estamos numa relação?”

De repente sais-te com esta. Ainda só tinham passado quatro dias… Quatro dias apenas, desde aquele em que nos tínhamos conhecido. Mas em bom rigor, entre a primeiríssima conexão de todas (tudo por culpa de uns blogues) e a tua pergunta, decorreram quatro meses. Teoricamente.

É engraçado como se quantifica o tempo para nos situarmos, para nos justificarmos, quando na verdade é a qualidade que importa. Em teoria, quatro meses haviam passado; na prática, foram muito mais, os suficientes para realmente chegarmos àquele ponto em que tu te sais com aquela… Em que, na prática, mesmo antes de nos termos conhecido, já nos conhecíamos.

É engraçado como o tempo passa… Mas lembro-me tão bem como se fosse ontem.

Que pergunta tão retórica, tão óbvia.

" - Estamos!", respondi eu, reforçando o óbvio. Retórica, teórica e praticamente, estamos. E estávamos, há muito. Pronto, ficou oficial. Eu numa relação contigo, tu numa relação comigo. Na rede e tudo. Sobretudo na rede de sensações e emoções que foi crescendo e nos prendeu da forma mais fantástica e inesperada possível.

O portátil foi testemunha, toda a casa, a noite de Verão também. Que seria a primeira de tantas noites e tantos dias e tantas coisas para viver, cheias de metades que completam o todo.

A partir daquele dia, fundámos uma parceria, feita de imagens icónicas e um sistema de comunicação próprio, de linguagem lexical, apenas por nós falada e compreendida. Mais do que uma relação, o amor virou instituição. De fundos de investimento privados, que de vez em quando, fomos tornando públicos. Bastava destoarmos do ambiente sisudo e maquinal dos restaurantes e bares, encher a sala cibernética de algodão doce verbal… Bastava passarmos pelo mundo abraçados ou de mão dada.

No fundo, a partir daquele dia, instituímo-nos como um sendo do outro. Ainda assim, na manhã seguinte, quiseste confirmar. Reforçando o óbvio, olhaste para mim com ternura e perguntaste:

“ - Estamos numa relação?”

Olhei para ti com ternura e respondi:

“ - Estamos numa relação.”

Lembro-me tão bem como se fosse hoje. Espero que te lembres também.

junho 11, 2015

A Quem

A quem darás o teu tempo?

A quem vais permitir que te roube o cheiro a troco de um toque?

Irás gemer a troco de quê?

A quem doarás a tua gargalhada, as tuas palavras? O teu olhar de soslaio?

Quem é que estará na cadeira oposta quando te sentares? E a quem responderás a tudo isto?

A quem? A quem
Senão a mim?

junho 08, 2015

Veludo Azul

Naquele dia... Veludo azul era o "dress code" combinado. Para além do azul que ela envergava, havia o vermelho-paixão a tingir-lhe os cabelos. Ele na mesma medida, também trazia azul, enquanto que o vermelho igualmente vestia as rosas que levava no bouquet.

Naquele dia, ela tinha na bagagem uma mão carregada de sonhos e um bilhete com destino ao coração dele, só de ida... Ele a esperava no cais, de peito reservado para a receber e a aconchegar numa longa estadia. Há quanta vida ele não estaria à espera dela?

E ele a esperou, naquele dia, com o nervoso miudinho que toma conta deste tipo de ocasiões e nos tolhe os movimentos. Após tantos textos e testes, após realmente tanta coisa, ele a esperou. E ela chegou. Cada um no lado oposto do cais. E na verdade, eram opostos; as assimetrias eram mais que muitas. Mas foram justamente as assimetrias que os levaram até ali.

Naquele dia, o beijo foi curto e atrapalhado - lá está o nervoso miudinho de novo. O que esse intruso não sabia é que aquele seria o primeiro de muitos beijos, trocados com intensa e imensa mestria, própria de quem já conhece os cantos ao lado de dentro. Eles já se no fundo já se conheciam, antes de se conhecerem.

Naquele dia, o azul não era afinal de veludo e muito menos de cetim ou seda... Mas mesclou-se com o do céu. O vermelho pulsou nas veias e nas rosas deitadas no seu leito. Todas as outras cores ganharam cor, ocupando os seus sentidos e lugares.

Naquele dia, ela chegou ao destino tão ansiado. E ele cumpriu com o seu... Faz hoje dois anos.

maio 08, 2015

Meio Século

Fizeste 50 anos.

Ainda moras na mesma casa. Aquela casa tua, grande, com vista para o rio e as duas margens que beijam ininterruptamente o céu. Aquela casa cuja porta se abriu inúmeras vezes para quem tinha histórias novas e interessantes para contar, tal como se fechou quando ficaste aborrecido de tanto as ouvir.

Ainda se mantém tudo praticamente no mesmo lugar. Talvez haja um sofá de cor diferente, o mais recente filme de culto na estante, talvez tenhas dado entretanto uma nova demão nas paredes. Talvez haja mesmo o perfume da musa do momento a pairar no ar.

Talvez estejas um pouco cansado. Mas por outro lado, sentes-te cumprido. Observas-te ao espelho e passas a mão pelo cabelo; está mais grisalho que nunca. As rugas pronunciam-se a viva voz na esqualidez do teu semblante. Apesar disso, ainda não perdeste o charme. Nem mesmo o peso de meio século de vida que agora transportas nos ombros te tirou o brilho meigo dos olhos.

O teu filho tornou-se um adolescente moldado à tua imagem - inteligente, aventureiro, curioso. Faz-te lembrar o teu eu em versão chavalo. Não tarda também andará por aí a arrancar suspiros às miúdas. Orgulhas-te de tudo o que se tornou ao crescer. Ele é somente a perpetuação do teu sangue.

E tu tornaste-te num cinquentão. Ainda fumas, como sempre. Ainda fazes manguitos quando é preciso e para quem for preciso. Ainda sorves o teu cálice de vinho ou o teu copo de cerveja, que agora até te sabem melhor. Ainda olhas para o mundo com visão crítica e por vezes sarcástica. De vez em quando os teus alter-egos se cruzam e dizem um olá. Acredito que eles te tenham acompanhado até agora, sem no entanto envelhecer.

Fizeste então 50 anos e agora é que é. Agora é que estás preparado e disposto a viver aquilo que foste adiando, quem sabe com uma mochila às costas. Serenamente e sem pressa, com a sabedoria própria da idade. Agora tens todo o tempo que precisas. Eu, aqui armada em futuróloga, sei que vai ser assim. Por meu lado, não sei onde estarei. Aliás, nem sequer sei se estarei... Mas não me importava nada de estar no tal sofá, com o filme em punho, à tua espera para o podermos ver juntos, mesmo que não fosse de culto (já não se fazem tantos desse género como antigamente). Que o perfume fosse o meu. Não me importava até de te observar enquanto te observasses ao espelho.

E tudo isto mesmo não tendo uma história nova e interessante para te contar. É que também eu irei para velha... Só eu; o meu amor não.