abril 14, 2013

O Barco

Agarrei num pequeno pedaço de papel escrevinhado, à partida inútil. E na minha sapiência infantil, fiz dele um barquinho, o mais perfeito e bonito que consegui. Fiquei a olhar para ele. Palavras e palavras rabiscadas anteriormente conferiam-lhe um aspecto interessante, muito mais apelativo do que se eu o tivesse feito usando um papel em branco. Palavras essas que se cruzavam nas dobras e misturavam-se, sendo agora impossível lê-las. No entanto sei que elas estavam lá. E o seu significado também.

Pus o barquinho na água, pronto a navegar, ele e as palavras todas. Mas o barquinho cedeu à superfície e amoleceu. Desfez-se e afundou-se. Nem as palavras nele escritas lhe valeram.

Fiquei triste. O pedaço de papel não era tão inútil assim.

Concluí que, por mais palavras, e frases e afirmações que existam, de nada servirão se não houver superfície estável que as receba, que as segure e ao mesmo tempo que as deixe seguir o seu curso. Não era minha intenção fazer com que o barquinho se afundasse. Será que foi o peso das palavras? Mas elas, cheias de tanta vontade própria em seguir o seu curso - tal como eu as conheço - não deveriam querer tal coisa.

Para a próxima faço um barquinho de papel com uma folha em branco, maior e tudo. Pode ser que dessa vez ele siga feliz, contente e livre até ao seu porto.

abril 11, 2013

Nove Dígitos

Toca o despertador do telemóvel. Acordo e apercebo-me que já devia ter tocado há 15 minutos atrás. Acabei de "queimar" um quarto de hora, como manda a tradição. Levanto-me, olho através da janela e assisto a um tímido nascer do sol que nem me lembrava que existia. Será que hoje vai chover outra vez?

Vou ao WC, depois à cozinha. Preparo o leite e as torradas do costume. Entretanto lanço um olhar momentaneamente interessado aos folhetos publicitários que ontem atafulharam a minha caixa de correio. Coisas muito giras, mas que não combinam com o magro recheio da minha carteira. Coisas muito deliciosas, mas que não combinam com o desejo de me manter igualmente magra, pois tenho a certeza que o longínquo Verão promete.

Acabo de comer, acabo de me arranjar. E segue-se a minha pequena sessão de "jogging" matinal; saio de casa a correr, porque mais uma vez o autocarro saiu do terminal antes da hora. Ou então sou eu que estou mesmo atrasada. E a culpa é daqueles malditos 15 minutos. Com sorte lá consigo apanhar o transporte. Esbaforida, sento-me e encosto a cabeça ao vidro, fechando os olhos. Dirijo-me à estação do metro, mais um cabecear, depois cumpro o habitual percurso a pé. Percorro-o, mas no fundo estou noutro lugar. Mesmo assim sei que ainda não choveu.

Apanho o último autocarro e entro no meu local de trabalho. "Bom dia" a todos, visto o uniforme e inicio a preparação dos produtos que vou vender ao balcão. Chegada a hora, coloco-me atrás do dito. Atendo o primeiro cliente do dia. Vem outro, e depois outro e outro. E a todos ofereço o meu melhor sorriso mecânico, um contacto visual directo que faz parte do processo e linguagem formatada para os conseguir convencer a voltar, tudo isto com boa educação - natural, diga-se de passagem. Alguns correspondem, outros nem por isso. Quero é que eles se lixem.

Eis que chega a minha pausa para almoço. Também eu vou poder disfrutar de uma refeição. Devoro-a em três tempos, tal é a fome. Volto para o balcão, mais um menu, mais uma bebida, mais uma sobremesa, mais um cliente parvo que reclama e deve ser porque o dia não lhe está a correr bem. Estou quase a sair dali, felizmente. Saio, dispo o uniforme e lá vou eu a correr de novo para apanhar o autocarro. Isto é conspiração, só pode. Ainda por cima começou a chover. Bem que me apetecia ir para casa, mas devo ir ao ginásio. E o mesmo ritual que cumpri de manhã repete-se, só que desta vez o uniforme é outro. E os únicos clientes aos quais devo atender são os músculos, que me agradecem a simpatia e a gentileza de os ter posto a trabalhar.

Treino, banho, autocarro. Finalmente, estou em casa. Janto a sopa da praxe. O cansaço vai aparecendo de mansinho. E eu não me dou por vencida. Porque ainda me falta fazer algo.

Nove dígitos. Bastam nove dígitos para mergulhar numa espécie de doce amnésia há muito ansiada. A tua voz. O teu timbre maduro, alegrado com aquele teu sotaque bem-disposto. As tuas piadas. As peripécias do teu dia de trabalho. A tua ternura. A fantasia com que enfeitas as descrições acaloradas do que ainda está para vir entre nós dois. Não me apetece dormir, apesar do cansaço. Apetece-me ouvir tudo o que tens para me dizer, mesmo que seja insignificante.

De súbito me esqueço daqueles 15 minutos. Do cliente parvo. Da chuva. Das provas de atletismo improvisado que uso para cumprir com horários e rotinas. Mas não me esqueço do Verão que promete. Aquele que me vai levar até ti. E que no fundo, já não está assim tão longínquo.

abril 08, 2013

Online

- Estás muito contente... Que se passa?
- Estou contente porque estou a falar contigo, porque estou de folga e estou a falar contigo, porque estou a pintar e estou a falar contigo, porque estou a comer Corn Flakes e estou a falar contigo...
Ah... E porque estou a falar contigo.

abril 03, 2013

Idílio

Saudades. Ânsia. Desejo. Ternura. Tu e eu frente a frente no cais. O sol a bater-nos na pele. Perfume na tua. O meu vestido na noite. O "Blue Velvet" da Lana misturado com luar. O amanhecer. O asfalto.

Tu. Eu. Nós. Simplesmente. Mesmo que não se explique.

abril 01, 2013

Não-Pendente

De vez em quando, lá vou vendo os teus olhos.
Olhos que classifiquei "de mel".
Tu assim o disseste, na verdade.
Tinhas olhos de mel. Olhos doces.
Olhos doentes.
Eu li-os. E vi que havia gente. Mas estavas sozinho.
Olhos dementes...
Olhos que afinal, nada procuravam.
E eu que lhes queria fazer companhia. De uma vez por todas.
Olhos por muito tempo ausentes.
De um olhar que afinal se revelou não-pendente.
Nem de mim. De mais alguém?
Fiquei por saber.

Que encontres então
Quem consiga gostar mais desses olhos cor de mel
Do que eu.
E que os contemple
Mais do que eu poderia contemplar.
No fundo, que tenha a sorte de os conhecer.
Porque essa, infelizmente,
Eu não tive.

E ainda assim
Lá vou vendo os teus olhos
De vez em quando.

março 04, 2013

A Virgem e os Apóstolos

Na noite da consumação, os Apóstolos aguardavam em redor da mesa. A Virgem entrou na sala, coberta com um manto. Em silêncio o retirou, pondo a descoberto a sua nudez. Subiu para cima da mesa, deitou-se e disse:
"Tomai todos e comei. Isto é o meu corpo, que será entregue a vós".
Foi então que eles a devoraram, famintos de luxúria. Rasgaram-lhe a pele branca, dilaceraram-lhe a carne e beberam do seu sangue. Todos o fizeram, à excepção de um, que se manteve afastado. Perguntaram-lhe:
"Irmão, não quereis vós partilhar deste repasto?"
Ao que o Apóstolo respondeu:
"A carne é apenas carne. Partilhai-a entre vós, pois eu prefiro a alma, e essa é eterna".
E retirou-se, deixando os restantes surpresos. Como não tinham compreendido, zombaram dele e desdenharam-no.
Três dias depois, e sem que ninguém soubesse, a Virgem apareceu à porta de casa do Apóstolo que a tinha negado. Este ficou pasmado ao vê-la inteira, com toda a sua delicada beleza.
"Não temas" - pediu-lhe ela, - " vim cumprir com a Palavra Divina".
Perante o olhar incrédulo do Apóstolo, continuou:
"Resignaste-me diante dos teus semelhantes e por isso eu me consagro a ti, porque aos teus olhos a minha alma vale muito mais do que o meu corpo".
Em verdade Ela vos diz: a matéria pertence a muitos, mas só a merece quem lhe descobre a Essência.

fevereiro 27, 2013

Choque Em Cadeia

Recebeste o condão de amar quem não te ama de volta. Porque essa mesma pessoa ama outra. Como não te achas digno e merecedor de mais ninguém, a não ser da pessoa que o teu coração escolheu (e não tu), não te sentes capaz de te entregar a outrém, tal como a pessoa que escolheste também não se sente capaz de se entregar a ti. É então que aparece uma outra pessoa na tua vida, que recebeu o condão de te amar... E tu lhe fazes o mesmo que te estão a fazer. A pessoa cujo coração te escolheu, e não ela, também se vai sentir como tu te sentes em relação a quem ainda amas. E essa pessoa não conseguirá dar-se a mais ninguém a não ser a ti... E quem a amará depois não terá o seu amor de volta. E assim sucessivamente...

Neste choque em cadeia, não há vítima que escape ilesa. Uns morrem, ainda que lentamente, outros sofrem escoriações mais ou menos graves, consoante a força do embate. É então que chega esse experiente e conceituado doutor chamado Tempo ao local do acidente. Pergunta o que temos, onde sentimos mais dores, faz um diagnóstico completo do nosso estado. Trata das nossas feridas e reanima quem está prestes a sucumbir. 

Este doutor, como tantos outros, não faz milagres, nem nos promete a mais rápida das recuperações. Ficaremos com cicatrizes, mazelas, decerto condicionados com memórias do fatídico acontecimento... Contudo, uma coisa é certa: mais cedo ou mais tarde, e graças a ele, estaremos prontos para nos fazermos à estrada de novo... Visto que o itinerário que percorremos não nos levou ao destino que mais procurávamos (muito pelo contrário...), ficaremos inclusive com vontade de conhecer um diferente...

E dessa vez, será sem sofrer um único arranhão.

fevereiro 18, 2013

Meditando...

Conheço uma pessoa que costumava dizer que há mais gente a querer o nosso mal do que o nosso bem. Eu não gosto de pensar de uma forma assim tão radical. Ainda me resta uma esperançazinha de que há gente boa neste mundo, com boas intenções, mesmo que não seja propriamente santa, porque hoje em dia, santos só mesmo em forma de estátuas. E talvez esta minha falta de radicalidade de pensamento seja a culpada de eu levar com tantos golpes, pontapés e murros no estômago, pois as minhas defesas são demasiado fracas; o aço do escudo derrete, o muro desmorona-se, a espada parte-se. E lá vou eu toda, coração na dianteira e cérebro na rectaguarda, para o que der e vier. Eu confio, eu entrego, eu dou, eu sou, eu faço, eu aconteço, eu aproveito, eu sugo as horas e os minutos e os segundos e os milésimos de segundo até á última gota. Eu não me importo com os ferimentos que me vão vincar o corpo no final da batalha. A minha intuição guerreira diz não, mas eu digo sim. E eis senão quando perco o equilíbrio na derradeira estocada. Vou contra o chão, trespassada e rasgada... Mais uma vez. E ali fico prostrada, a esvair-me num sangue que já pouco me corre nas veias. Faço o luto de mim própria, das minhas atitudes inconsequentes, do querer demais de quem nada me pode dar a não ser dores daquelas bem fundas que me corroem por dentro. Fico minada e envenenada. Até que de súbito, me levanto. Ergo mais uma vez o escudo derretido, volto a empilhar as pedras esburacadas, levanto a espada só com metade da lâmina... E preparo-me para mais um embate. O chão lá estará para me amparar. Somente o chão.

fevereiro 13, 2013

A Lógica

- Só gostava de saber o que vês em mim que não vês nos outros...
- E eu gostava de saber também o que vês nela que não vês em mim...
- Isso são coisas que não se explicam...
- Ora aí está.

fevereiro 12, 2013

Final

Quando eu partir
Irei com certeza recordar
Tudo o que de bom aconteceu entre nós...
Mas também irei lamentar
Tudo o que de melhor poderia ter acontecido...

As manhãs que poderíamos ter aproveitado...
As tardes que poderíamos ter passado...
As noites que poderíamos ter vivido...

Aquela paisagem que não vimos...
A mesa onde não jantámos...
O quarto onde não dormimos...

E todas essas sensações
E emoções
E ilusões
Escapar-se-ão ilesas dos meus dedos
Desvanecendo-se neste corpo
Que um dia sentiu os teus medos
Neste corpo sem vida
Aquela que me deste e que ao mesmo tempo tiraste...

Quando tu partires
Irás com certeza recordar
Quem fizeste partir antes...

janeiro 31, 2013

A Persistência

- Queres namorar comigo?
- Porque perguntas isso?
- Porque quero que respondas.
- Ok... A minha resposta é não.
Passados 10 minutos:
- Queres namorar comigo?
- Porque que é que estás a perguntar isso de novo?
- Porque podias ter mudado de ideias entretanto...
- Achas que mudei?... A minha resposta é a mesma de há bocado.
- Ok... Realmente 10 minutos é pouco tempo. Eu volto a perguntar-te amanhã.
- Sim, mas a minha resposta não mudará.
- Que curioso... O que sinto por ti também não.

janeiro 27, 2013

Ocaso

O sol no horizonte descia
E eu, muito atenta, o admirava
Enquanto ele findava mais um dia
As suas cores de fogo transbordava.

Perguntou-me, num sussurro, se haveria
Mais alguém que me acompanhasse
A observar toda aquela magia
Como se de um espectáculo se tratasse.

Respondi-lhe tristemente que não;
Toda a gente andava ocupada
Especialmente alguém que o coração
Escolheu como eterna morada...

E eis que o sol então me acarinha:
"Amanhã de novo cá estarei...
Pode ser que não estejas sozinha
E espectáculo maior eu vos darei..."

Assim sendo eu te quero convidar
A tornares-te fiel espectador
De um dia que poderá acabar
Com um belo e diferente esplendor...

Um pôr-do-sol é sempre belo, não minto
Mas não queiras sequer comparar...
És tu que o tornas belo, é o que sinto
Quando me junto a ti para o contemplar...