abril 17, 2013

Fugimos

Faz as malas! Fugimos hoje. Para onde, ainda não sei. Mas fugimos, e isso é certo. Não te demores. Deixa para lá as coisinhas fúteis que costumas usar. Dás-me vontade de dizer que ainda és pior que as mulheres. Deixa o perfume em cima da mesa, porque o que eu quero mesmo é o cheiro da tua pele nua, e a esse nem a fragrância mais cara do mundo consegue igualar. Não te importes com a roupa, porque não vais precisar muito dela. Leva a do corpo e uma ou outra camisola, que eu vou adorar vestir quando estiver a levantar-me da cama. Qual cama? Ainda não sei qual. Mas pode ser uma duna, um pedaço de asfalto discreto de olhares, ou se fizeres muita questão, o colchão velho de uma pensão daquelas bem baratas e rascas, porque nem penses que se vai gastar muito dinheiro em luxos. Não preciso de luxos porque já te tenho a ti. Despacha-te a fazer as malas. Vamos de carro, de comboio, de autocarro, de metro, mas por favor, vamos. O relógio já não aguenta de tanta ansiedade e está prestes a rebentar. Bom, se formos a ver eu também nem vou precisar dele, e tu muito menos. Deixa para lá o relógio. Não percas tempo. Ganha-o. E comigo. Por isso é que fugimos. Vamos deixar o tempo que os outros vivem e criar um só nosso, e consumi-lo até que os nossos corpos e almas e corações e tudo o que mais houver apodreçam na doçura e loucura e aventura que ele trará. Vamos. Pensando melhor, deixa as malas. É que a única bagagem que precisas está em mim. E a minha, em ti. Fugimos hoje?

abril 15, 2013

Caderno

Na minha estante, entre livros já lidos e relidos e uma ou outra enciclopédia que ajuda a decorar os espaços deixados entre eles, guardo um caderno, de papel com tom amarelecido a sugerir séculos de existência, e no qual escrevo mensagens. Aquelas mensagens especiais que vou recebendo por telemóvel, de amigos, amigas e não só, como forma de me lembrar deles. O caderno tem uma capa dura, de cor bege, tal como se fosse um livro. E apesar de não ter título, acaba por ser um livro, que de vez em quando vou lendo e relendo, como os outros. Conhecem aqueles tipos de obras que uma pessoa lê, chega ao capítulo final e fica com vontade de ler de novo, mesmo que já conheça a história de cor e salteado? É mais ou menos isso. A diferença é que este livro ainda não conheceu um capítulo final. Isto porque há sempre mais uma mensagem para colocar. Ponho o nome do remetente, copio o texto tal e qual como me foi enviado, registo a data e inclusive a hora a que o recebi. E aí permanece conservado para a posteridade, em nome daquela máxima muito bonita que diz "recordar é viver".

E nessa posteridade posso encontrar de tudo: provas de amizade, provas de amor, provas de amizade que deixou de o ser, provas que desaguaram em desamor. Coisas que eram do momento e outras que se poderiam tornar eternas, ou ainda o são. Mas essas são raras. E através da leitura de todas essas provas, assisto à mutação daquilo que não é palpável, perceptível ao tacto, mas que um dia o coração, a alma ou o que lhe quiserem chamar conseguiu captar. E daí eu ter agarrado numa caneta e, de telemóvel em punho, ter feito um esforço para que tudo isso se tornasse palpável aos meus olhos e à minha compreensão. Acho que o esforço me foi recompensado, porque ainda hoje, ao abrir o caderno, consigo tocar nessas mensagens e sentir o que está dentro delas, ou estava.

Falta-me só transcrever as tuas, que já me enviaste há imenso tempo e que ainda guardo no telemóvel. Aquela escrita em quatro línguas, a da transferência efectuada no banco dos afectos, a tua inspirada confissão de desinspiração para escrever mensagens, a tua cómica paixão declarada por estados de espírito "zombie"... Coisas que só tu e eu entendíamos. E que me levaram a pensar: "Estas merecem ir para o caderno". Não foram logo na altura porque apeteceu-me tê-las à mão, para ir relendo e gravando na minha memória afectiva. Não me dá muito jeito andar com o caderno atrás...

Embora esses curtos textos já não sejam aquilo que foram, eu vou escrevê-los no caderno à mesma. E vou tocar muito neles. E sentir o que está dentro deles. Ou estava. Quem sabe até se não poderá voltar a estar...

abril 14, 2013

O Barco

Agarrei num pequeno pedaço de papel escrevinhado, à partida inútil. E na minha sapiência infantil, fiz dele um barquinho, o mais perfeito e bonito que consegui. Fiquei a olhar para ele. Palavras e palavras rabiscadas anteriormente conferiam-lhe um aspecto interessante, muito mais apelativo do que se eu o tivesse feito usando um papel em branco. Palavras essas que se cruzavam nas dobras e misturavam-se, sendo agora impossível lê-las. No entanto sei que elas estavam lá. E o seu significado também.

Pus o barquinho na água, pronto a navegar, ele e as palavras todas. Mas o barquinho cedeu à superfície e amoleceu. Desfez-se e afundou-se. Nem as palavras nele escritas lhe valeram.

Fiquei triste. O pedaço de papel não era tão inútil assim.

Concluí que, por mais palavras, e frases e afirmações que existam, de nada servirão se não houver superfície estável que as receba, que as segure e ao mesmo tempo que as deixe seguir o seu curso. Não era minha intenção fazer com que o barquinho se afundasse. Será que foi o peso das palavras? Mas elas, cheias de tanta vontade própria em seguir o seu curso - tal como eu as conheço - não deveriam querer tal coisa.

Para a próxima faço um barquinho de papel com uma folha em branco, maior e tudo. Pode ser que dessa vez ele siga feliz, contente e livre até ao seu porto.

abril 11, 2013

Nove Dígitos

Toca o despertador do telemóvel. Acordo e apercebo-me que já devia ter tocado há 15 minutos atrás. Acabei de "queimar" um quarto de hora, como manda a tradição. Levanto-me, olho através da janela e assisto a um tímido nascer do sol que nem me lembrava que existia. Será que hoje vai chover outra vez?

Vou ao WC, depois à cozinha. Preparo o leite e as torradas do costume. Entretanto lanço um olhar momentaneamente interessado aos folhetos publicitários que ontem atafulharam a minha caixa de correio. Coisas muito giras, mas que não combinam com o magro recheio da minha carteira. Coisas muito deliciosas, mas que não combinam com o desejo de me manter igualmente magra, pois tenho a certeza que o longínquo Verão promete.

Acabo de comer, acabo de me arranjar. E segue-se a minha pequena sessão de "jogging" matinal; saio de casa a correr, porque mais uma vez o autocarro saiu do terminal antes da hora. Ou então sou eu que estou mesmo atrasada. E a culpa é daqueles malditos 15 minutos. Com sorte lá consigo apanhar o transporte. Esbaforida, sento-me e encosto a cabeça ao vidro, fechando os olhos. Dirijo-me à estação do metro, mais um cabecear, depois cumpro o habitual percurso a pé. Percorro-o, mas no fundo estou noutro lugar. Mesmo assim sei que ainda não choveu.

Apanho o último autocarro e entro no meu local de trabalho. "Bom dia" a todos, visto o uniforme e inicio a preparação dos produtos que vou vender ao balcão. Chegada a hora, coloco-me atrás do dito. Atendo o primeiro cliente do dia. Vem outro, e depois outro e outro. E a todos ofereço o meu melhor sorriso mecânico, um contacto visual directo que faz parte do processo e linguagem formatada para os conseguir convencer a voltar, tudo isto com boa educação - natural, diga-se de passagem. Alguns correspondem, outros nem por isso. Quero é que eles se lixem.

Eis que chega a minha pausa para almoço. Também eu vou poder disfrutar de uma refeição. Devoro-a em três tempos, tal é a fome. Volto para o balcão, mais um menu, mais uma bebida, mais uma sobremesa, mais um cliente parvo que reclama e deve ser porque o dia não lhe está a correr bem. Estou quase a sair dali, felizmente. Saio, dispo o uniforme e lá vou eu a correr de novo para apanhar o autocarro. Isto é conspiração, só pode. Ainda por cima começou a chover. Bem que me apetecia ir para casa, mas devo ir ao ginásio. E o mesmo ritual que cumpri de manhã repete-se, só que desta vez o uniforme é outro. E os únicos clientes aos quais devo atender são os músculos, que me agradecem a simpatia e a gentileza de os ter posto a trabalhar.

Treino, banho, autocarro. Finalmente, estou em casa. Janto a sopa da praxe. O cansaço vai aparecendo de mansinho. E eu não me dou por vencida. Porque ainda me falta fazer algo.

Nove dígitos. Bastam nove dígitos para mergulhar numa espécie de doce amnésia há muito ansiada. A tua voz. O teu timbre maduro, alegrado com aquele teu sotaque bem-disposto. As tuas piadas. As peripécias do teu dia de trabalho. A tua ternura. A fantasia com que enfeitas as descrições acaloradas do que ainda está para vir entre nós dois. Não me apetece dormir, apesar do cansaço. Apetece-me ouvir tudo o que tens para me dizer, mesmo que seja insignificante.

De súbito me esqueço daqueles 15 minutos. Do cliente parvo. Da chuva. Das provas de atletismo improvisado que uso para cumprir com horários e rotinas. Mas não me esqueço do Verão que promete. Aquele que me vai levar até ti. E que no fundo, já não está assim tão longínquo.

abril 08, 2013

Online

- Estás muito contente... Que se passa?
- Estou contente porque estou a falar contigo, porque estou de folga e estou a falar contigo, porque estou a pintar e estou a falar contigo, porque estou a comer Corn Flakes e estou a falar contigo...
Ah... E porque estou a falar contigo.

abril 03, 2013

Idílio

Saudades. Ânsia. Desejo. Ternura. Tu e eu frente a frente no cais. O sol a bater-nos na pele. Perfume na tua. O meu vestido na noite. O "Blue Velvet" da Lana misturado com luar. O amanhecer. O asfalto.

Tu. Eu. Nós. Simplesmente. Mesmo que não se explique.

abril 01, 2013

Não-Pendente

De vez em quando, lá vou vendo os teus olhos.
Olhos que classifiquei "de mel".
Tu assim o disseste, na verdade.
Tinhas olhos de mel. Olhos doces.
Olhos doentes.
Eu li-os. E vi que havia gente. Mas estavas sozinho.
Olhos dementes...
Olhos que afinal, nada procuravam.
E eu que lhes queria fazer companhia. De uma vez por todas.
Olhos por muito tempo ausentes.
De um olhar que afinal se revelou não-pendente.
Nem de mim. De mais alguém?
Fiquei por saber.

Que encontres então
Quem consiga gostar mais desses olhos cor de mel
Do que eu.
E que os contemple
Mais do que eu poderia contemplar.
No fundo, que tenha a sorte de os conhecer.
Porque essa, infelizmente,
Eu não tive.

E ainda assim
Lá vou vendo os teus olhos
De vez em quando.

março 04, 2013

A Virgem e os Apóstolos

Na noite da consumação, os Apóstolos aguardavam em redor da mesa. A Virgem entrou na sala, coberta com um manto. Em silêncio o retirou, pondo a descoberto a sua nudez. Subiu para cima da mesa, deitou-se e disse:
"Tomai todos e comei. Isto é o meu corpo, que será entregue a vós".
Foi então que eles a devoraram, famintos de luxúria. Rasgaram-lhe a pele branca, dilaceraram-lhe a carne e beberam do seu sangue. Todos o fizeram, à excepção de um, que se manteve afastado. Perguntaram-lhe:
"Irmão, não quereis vós partilhar deste repasto?"
Ao que o Apóstolo respondeu:
"A carne é apenas carne. Partilhai-a entre vós, pois eu prefiro a alma, e essa é eterna".
E retirou-se, deixando os restantes surpresos. Como não tinham compreendido, zombaram dele e desdenharam-no.
Três dias depois, e sem que ninguém soubesse, a Virgem apareceu à porta de casa do Apóstolo que a tinha negado. Este ficou pasmado ao vê-la inteira, com toda a sua delicada beleza.
"Não temas" - pediu-lhe ela, - " vim cumprir com a Palavra Divina".
Perante o olhar incrédulo do Apóstolo, continuou:
"Resignaste-me diante dos teus semelhantes e por isso eu me consagro a ti, porque aos teus olhos a minha alma vale muito mais do que o meu corpo".
Em verdade Ela vos diz: a matéria pertence a muitos, mas só a merece quem lhe descobre a Essência.

fevereiro 27, 2013

Choque Em Cadeia

Recebeste o condão de amar quem não te ama de volta. Porque essa mesma pessoa ama outra. Como não te achas digno e merecedor de mais ninguém, a não ser da pessoa que o teu coração escolheu (e não tu), não te sentes capaz de te entregar a outrém, tal como a pessoa que escolheste também não se sente capaz de se entregar a ti. É então que aparece uma outra pessoa na tua vida, que recebeu o condão de te amar... E tu lhe fazes o mesmo que te estão a fazer. A pessoa cujo coração te escolheu, e não ela, também se vai sentir como tu te sentes em relação a quem ainda amas. E essa pessoa não conseguirá dar-se a mais ninguém a não ser a ti... E quem a amará depois não terá o seu amor de volta. E assim sucessivamente...

Neste choque em cadeia, não há vítima que escape ilesa. Uns morrem, ainda que lentamente, outros sofrem escoriações mais ou menos graves, consoante a força do embate. É então que chega esse experiente e conceituado doutor chamado Tempo ao local do acidente. Pergunta o que temos, onde sentimos mais dores, faz um diagnóstico completo do nosso estado. Trata das nossas feridas e reanima quem está prestes a sucumbir. 

Este doutor, como tantos outros, não faz milagres, nem nos promete a mais rápida das recuperações. Ficaremos com cicatrizes, mazelas, decerto condicionados com memórias do fatídico acontecimento... Contudo, uma coisa é certa: mais cedo ou mais tarde, e graças a ele, estaremos prontos para nos fazermos à estrada de novo... Visto que o itinerário que percorremos não nos levou ao destino que mais procurávamos (muito pelo contrário...), ficaremos inclusive com vontade de conhecer um diferente...

E dessa vez, será sem sofrer um único arranhão.

fevereiro 18, 2013

Meditando...

Conheço uma pessoa que costumava dizer que há mais gente a querer o nosso mal do que o nosso bem. Eu não gosto de pensar de uma forma assim tão radical. Ainda me resta uma esperançazinha de que há gente boa neste mundo, com boas intenções, mesmo que não seja propriamente santa, porque hoje em dia, santos só mesmo em forma de estátuas. E talvez esta minha falta de radicalidade de pensamento seja a culpada de eu levar com tantos golpes, pontapés e murros no estômago, pois as minhas defesas são demasiado fracas; o aço do escudo derrete, o muro desmorona-se, a espada parte-se. E lá vou eu toda, coração na dianteira e cérebro na rectaguarda, para o que der e vier. Eu confio, eu entrego, eu dou, eu sou, eu faço, eu aconteço, eu aproveito, eu sugo as horas e os minutos e os segundos e os milésimos de segundo até á última gota. Eu não me importo com os ferimentos que me vão vincar o corpo no final da batalha. A minha intuição guerreira diz não, mas eu digo sim. E eis senão quando perco o equilíbrio na derradeira estocada. Vou contra o chão, trespassada e rasgada... Mais uma vez. E ali fico prostrada, a esvair-me num sangue que já pouco me corre nas veias. Faço o luto de mim própria, das minhas atitudes inconsequentes, do querer demais de quem nada me pode dar a não ser dores daquelas bem fundas que me corroem por dentro. Fico minada e envenenada. Até que de súbito, me levanto. Ergo mais uma vez o escudo derretido, volto a empilhar as pedras esburacadas, levanto a espada só com metade da lâmina... E preparo-me para mais um embate. O chão lá estará para me amparar. Somente o chão.

fevereiro 13, 2013

A Lógica

- Só gostava de saber o que vês em mim que não vês nos outros...
- E eu gostava de saber também o que vês nela que não vês em mim...
- Isso são coisas que não se explicam...
- Ora aí está.

fevereiro 12, 2013

Final

Quando eu partir
Irei com certeza recordar
Tudo o que de bom aconteceu entre nós...
Mas também irei lamentar
Tudo o que de melhor poderia ter acontecido...

As manhãs que poderíamos ter aproveitado...
As tardes que poderíamos ter passado...
As noites que poderíamos ter vivido...

Aquela paisagem que não vimos...
A mesa onde não jantámos...
O quarto onde não dormimos...

E todas essas sensações
E emoções
E ilusões
Escapar-se-ão ilesas dos meus dedos
Desvanecendo-se neste corpo
Que um dia sentiu os teus medos
Neste corpo sem vida
Aquela que me deste e que ao mesmo tempo tiraste...

Quando tu partires
Irás com certeza recordar
Quem fizeste partir antes...