maio 15, 2013

Verso Breve

Ainda aqui estás
E lá estiveste
E sempre estarás
Foi o que disseste

Também estarei
Não é gratidão
Foi o que pensei
No meu coração.

maio 11, 2013

Cicatriz

Quando eu era pequena, tinha uma amiga que vivia na mesma rua que eu e com a qual gostava muito de brincar ao ar livre. Sendo eu uma criança um tanto ou quanto solitária, ela era uma das poucas amigas que possuía. Num certo dia de Verão, ela veio chamar-me a casa. O meu pai andava a pintar as paredes, e a enorme lata de tinta que ele usava tinha uma tampa cujo rebordo era bastante saliente, permitindo que a lata pudesse ser aberta sem grande dificuldade. E estava virado para cima, tapando a lata colocada no chão. Quando ouvi a voz da minha amiga a chamar por mim, corri para junto da porta, ansiando por mais uma tarde de brincadeira...

Passei junto à lata e eis senão quando... zás!, o rebordo da tampa me faz um golpe profundo na perna esquerda! E não foi um daqueles cortes superficiais... Chegou mesmo a rasgar-me um pedaço da pele, que ficou inclusive dobrado para dentro!... Assustada e com dores, eu só via sangue a escorrer... De súbito, como seria de esperar, vieram os meus pais e o meu irmão socorrer-me - eles em pânico, este um pouco mais calmo... Não me lembro de alguma vez ter sangrado tanto. Com sorte, não fui parar ao hospital, contudo também não fui brincar para a rua naquele dia... A minha amiga, que também deve ter ficado assustada quando se apercebeu da situação, regressou a casa. Entretanto o sangue lá estancou, foi feito o devido curativo, por fim acalmei... Fiquei com a perna envolta em ligadura durante alguns dias, mas isso não me impediu de voltar a brincar, e principalmente com a minha amiga. No dia seguinte lá estava eu com ela, no pátio da vivenda onde eu morava, como se nada tivesse acontecido.

Do incidente resultou uma cicatriz bastante visível, e não lá muito bonita... E já se sabe que as cicatrizes marcam a nossa pele para toda a vida. Os anos foram passando e cresci com ela, aprendendo a aceitá-la como uma parte de mim. A minha amiga também cresceu e fomos nos afastando... Ambas substituímos as brincadeiras da nossa meninice pelos estudos e outros interesses mais adultos. Aos poucos, deixámos de ter contacto uma com a outra, mesmo sendo vizinhas próximas. A minha mãe costumava comentar algo do género "ficaste com essa cicatriz por causa dela e agora não te liga nenhuma!". Mas não foi propriamente por causa dela. Obviamente que a rapariga não teve culpa nenhuma do que se passou. Culpa tive eu, cuja sede de companhia e amizade e desejo de brincadeira (tão natural nas crianças) me traiu.

Este episódio podia resumir a história da minha vida, tão curta e ao mesmo tempo tão rica em cicatrizes, mais ou menos parecidas com aquela que ostento na minha perna esquerda desde miúda. Cicatrizes que outrora foram feridas causadas por ânsias, vontades e desejos despoletados e sentidos por aqueles e aquelas que também chamaram por mim, e aos quais eu cedi. De qualquer forma, segui e sigo optimista. Ainda hoje olho para a cicatriz e me recordo dos momentos de diversão que partilhei com a tal amiga de infância. Para além disso, jã não me parece tão feia como dantes. Aliás - e isto é de facto curioso - , o formato que ela assumiu faz-me lembrar um sorriso...

maio 07, 2013

Café Duplo

Duas doses de pó mágico, uma chávena grande, água bem quente – eis a receita. Confesso que não sou grande apreciadora da mesma, só que por vezes há que a confeccionar. A maioria dos comuns mortais consome-a todos os dias (ou quase todos), pelo menos uma vez ou até mais, e consta que também acrescentam açúcar ou adoçante, como é da praxe. Eu não. Consumo esporadicamente e não acrescento nada a não ser um pouco de natas, às vezes, e uma pitada de canela em pó. Fica mais interessante, à laia de bebida “gourmet”.

Sorvo-a devagar, tendo cuidado para não queimar a língua. A nuvem fofa de natas e canela vai-se desfazendo aos poucos no líquido. Entretanto lembrei-me que a maioria dos comuns mortais prefere uma chávena pequena em detrimento da grande. Pois eu gosto mais desta última, uma dupla dose; no meu caso, sempre funciona melhor do que apenas uma. É duplamente reconfortante e estimulante.

Reconforto-me e estimulo-me desta maneira quando o meu corpo pede uma carga extra de energia para enfrentar mais um dia de trabalho, manter-me mais alerta e atenuar insónias propositadas. Ou então isto é tudo uma desculpa esfarrapada para saborear natas disfarçadamente, sem estar a aturar reclamações da balança, ou até mesmo para mostrar aos comuns mortais que também faço parte do rebanho. Só não saco é do cigarro.

Na verdade, até nem poderá ser nada disto. Sorvo este café duplo muito provavelmente como desculpa para pensar um pouco mais em ti enquanto não começa mais uma sessão de tortura laboral. A pausa para o café é quase como um momento fora do tempo, em que nos abstraímos de tudo e entramos numa espécie de introspecção. Nesse momento, somos só nós e a chávena.

Eu, a chávena e tu. O café não te substitui de forma alguma, contudo também é doce, quente, revigorante, aconchegante, terapêutico. E ainda por cima, como é duplo, fornece todas essas propriedades a dobrar, para além de se demorar mais tempo a bebê-lo, devido ao tamanho da chávena... O que é óptimo, porque consequentemente, consigo incluir-te na minha introspecção de modo mais prolongado.

Havemos de tomar um café juntos, um dia destes. Curto, longo, simples, duplo, triplo, não interessa... Desde que possamos gozar de um momento introspectivo em simultâneo. E se não houver natas nem canela, ou até mesmo o básico açúcar, acredita que nem sequer me vou importar.

maio 06, 2013

A Ponte

Eu tenho um mundo pequeno, tão pequenino, tão meu. Tu tens um mundo pequeno, tão pequenino, tão teu. E entre esses dois mundos, tão pequeninos e tão nossos, existe uma ponte, igualmente nossa. Muito nossa, e ainda mais pequenina, que ambos nos atrevemos a construir - tudo em prol da evolução desses mesmos mundos. Isto porque essa ponte nos permite partilhar o que de melhor há neles. Todos os dias lá nos encontramos, a meio da dita ponte... Eu trago o melhor que há no meu mundo para te mostrar, e tu trazes o melhor do teu para me mostrares... E ambos ficamos encantados com tudo o que esses nossos mundos pequeninos têm para oferecer um ao outro, e isso os engrandece e os enriquece... E lá está, os faz evoluir.

Naquele dia, como de costume, agarrei mais uma vez num pedaço do meu mundo e fui até ao teu encontro, a meio da ponte. Não estavas lá - devias ter-te atrasado, provavelmente a escolher o teu pedaço para trazeres. Mas eu esperei por ti, pacientemente. E nunca mais aparecias... Esperei mais um pouco, e esse pouco transformou-se em muito, e nada. Não apareceste. De súbito, fiquei com a impressão de que a ponte tinha aumentado de tamanho, como se ganhasse quilómetros e quilómetros, e eles nos estivessem a separar. Por mais que eu esforçasse a minha visão, não te conseguia ver lá ao fundo. Por mais que eu corresse, não conseguia chegar até ti.

Tudo o que eu queria era viver um pouco no teu mundo... E deixar que tu vivesses no meu, e o mudasses; que te tornasses tu próprio na sua evolução. E eu, habitando no teu, faria a minha parte também.

Tenho para mim que, na génese de todas as coisas, os nossos pequenos mundos eram um só, e que por razões que não se encontram ao alcançe do nosso raciocínio, se separaram, dando origem a dois. Com esta troca que sugiro, julgo com toda a certeza que voltariam a fundir-se. E aí já não seria necessário haver uma ponte que os ligasse.

A propósito, ainda lá estou, bem no meio, aguardando a tua chegada. Com todo aquele pedaço do meu mundo, pronto a tornar-se teu.

maio 05, 2013

Facto

Existe alguém.

E ainda bem.

Quem?

Só a nós diz respeito...

E a mais ninguém.

maio 01, 2013

Arquétipo

O teu cabelo moreno
O teu olhar delicado
O teu semblante sereno
O teu peito desenhado

Os teus lábios modestos
O teu sorriso rasgado
Os teus decididos gestos
O teu passo demorado

A tua voz maviosa
O teu discurso estudado
A tua mente curiosa
O teu instinto apurado

O teu indiferente querer
O teu íntimo baralhado
A tua negação de ser
O meu arquétipo amado

O meu destino ferido
Pelo arquétipo errado
O teu pedestal destruído
O teu final declarado.

abril 29, 2013

Adoração

Adoro-te
Adoro adorar-te
Adoro que me adores
Adoro que adores adorar-me
E no meio de tanta adoração...
Adoramo-nos um ao outro!
E eu adoro isso
E sei que adoras também...

abril 28, 2013

Tu Mereces

Tu mereces o vento suave que te acaricia a face. Tu mereces a candura da vela numa noite escura. Tu mereces a espuma das ondas, cada sulco que as gotas da chuva deixam na terra seca, a ternura que as pétalas das rosas depositam nos teus olhos. Tu mereces o cheiro a sal, a bronze e o cheiro da madeira que se ergue para o alto. Tu mereces cada maçã colhida na infância das manhãs, a calma primaveril que toma conta das tardes, a aura prateada da lua. A frescura cálida do sol, e mereces cada ponto e partícula que estão mesmo aqui no firmamento. Tu mereces a fervura do sangue, do suor, das lágrimas derramadas em forma de virtude. E tu mereces a força da palavra, do número, do símbolo. Tantas coisas, quantas aquelas que te justificam, te sustentam, te contêm na sua ínfima composição. Mantém-te parte da parte e do todo que são uno. Tu mereces.

abril 27, 2013

A Viagem

Eis-me chegada ao meu destino. Munida de natural excitação, curiosidade e bastante interesse, inicio a minha visita guiada. És tu que abres as hostes. Em jeito de introdução ao percurso, permites-me fazer primeiro um breve reconhecimento da tua essência, só para ter uma ideia daquilo que vou poder encontrar. E parece-me bem - à partida, acho que vou gostar de te explorar, de te descobrir e de me divertir com isso.

Caminho pela tua história enquanto te oiço atentamente. Falas numa língua que eu entendo na perfeição, como se tivesse sido criada de propósito para mim. Mesmo assim, coloco-te algumas questões, tu respondes e eu anoto tudo no meu bloco de folhas até então vazias, prontas a serem preenchidas de ti. Continuo a ouvir-te; aquilo que foste, aquilo que agora és, aquilo que supostamente serás. Os factos encadeiam-se com os argumentos, as ideias rematam os sonhos, as vontades aliam-se aos princípios. E eu fico maravilhada com toda essa conexão que me mostras e que é tão semelhante à minha... À minha história, sobretudo. Sinto que aprendi muitíssimo, e não me fico por aí, como é óbvio. Sei que há muito mais...

Primeira paragem para uma breve degustação do teu sorriso, da tua boa disposição e boa conversa, preparada à base de trivialidades, com uma pitada de inteligência e desenvoltura intelectual. Deixo-me seduzir pelos aromas que me proporcionas... E para aperitivo, não estão nada maus...

Percorro de seguida as montanhas das tuas tantas outras virtudes. De vez em quando lá vou vislumbrando um ou outro rochedo, vegetação assim como que selvagem, agreste, rompendo o solo desbragadamente, sem ordem... Mas a paisagem no seu todo é graciosa e resplandecente. Contemplo-te. Acabo por encontrar uma linda cascata, e nela corre toda a simplicidade do teu existir. Apetece-me banhar-me nela para sempre... Outros lugares desconhecidos me esperam, porém. Um deles é o imponente palácio, cujo estilo arquitectónico remonta aos teus projectos futuros, ornamentados com esperanças e ambições... Com o meu olhar de turista curiosa, prescruto cada divisão atentamente, e vou apontando mais umas notas no meu bloco... Como por exemplo, que ali viveram anteriormente algumas rainhas. Umas ocuparam o trono por pouco tempo, outras um pouco mais, consoante a duração do reinado. Imaginei como seria bom viver ali... Quem me dera!

E esta viagem não termina sem antes entrar num magnífico templo, frequentado por tanta gente crente, mas na qual não se pode acreditar... Eu fujo um pouco disso, pois trago fé comigo. Acredita. Curvo-me com respeito e observo serenamente uma outra dimensão que me é ali apresentada... A dimensão do teu toque suave, do arrepio intenso que nasce dele sem avisar, do aconchego que experimento nos teus lábios, na tua língua, nos teus braços... Não me cobraste devoção à entrada, só que eu me sinto no dever de a prestar, neste templo construído nas linhas do teu corpo. De espírito transcendido, alcanço o teu altar, onde prostras um sagrado coração... E que belo que é! Medito. A fé que eu trazia em mim renova-se e fortalece-se perante tamanha grandeza. E crio logo ali a minha doutrina.

Infelizmente chegou a hora de partir. Amei, absolutamente, esta visita guiada. E tanto, mas tanto, que estou a pensar seriamente em fixar residência no tal palácio, e fundar uma nova dinastia. E voltar ao templo as vezes que eu quiser, para professar uma religião há muito negada.

Será que me fazes um desconto especial?

abril 23, 2013

Bagagem

Vou de viagem em breve. E por isso fiz uma lista das coisas que vou levar, para não me esquecer de nada. Primeiro que tudo, vou levar uma bússola daquelas modernas, e irei para onde ela me apontar. Vou levar paz e amor espelhados em tinta acrílica. Vou levar sensualidade nocturna fechada num frasco, daquelas bem cheirosas. Vou levar fogo solto no cabelo qual fénix, leveza nos pés qual Ícaro, sede de maresia e fome de verde. Vou levar “riffs” de guitarra delirantes nos ouvidos, calor terno nos braços, curiosidade nos olhos e amabilidade nos lábios. Vou levar um dragão ao ombro e a minha estrela mágica de estimação ao peito. Vou levar padrões de cornucópias, de flores esvoaçantes e outros que tais a preto e branco. Vou levar a delicadeza e malícia de cetim e renda. Vou levar uma noite mal-dormida... E ponteiros demasiado vagarosos no pulso, contrastando com pulsações demasiado velozes... Vou levar alguma ansiedade e nervosismo, mas nada que o momento não exija... Vou levar a serenidade e a racionalidade de sempre, de mãos dadas com a emoção e o sentimento. Vou levar a verdade e a consequência, languidez e vivacidade, o oito e o oitenta que me compõem. Vou levar a preguiça, a luxúria, a gula e deixar para trás as quatro restantes companheiras que faltam... São dispensáveis...
Bom, penso que está tudo. Ah! Entretanto lembrei-me: para me entreter durante o percurso, vou levar um “puzzle” que está por montar, e que ainda não montei porque creio que falta ali uma peça. Parto com a esperança de conseguir encontrá-la numa loja de “souvenirs”.

abril 22, 2013

Promete-me

Promete-me que não esperarás por mim, mas que irás alcançar-me. Eu não sou tão intangível como pensas. Promete-me que te irás congratular por eu ser real, com todas as minhas fissuras, falhas e estilhaços. Promete-me que me vais ajudar a consertar-me, sem te magoares neles. Promete-me então que vais ter cuidado. Longe de mim pretender que fiques ferido. Por isso te peço: promete-me. Promete-me que não terás medo de me perder. Já me achaste, certo? Tenho a noção de que foi sem quereres... E que isso não se torne desculpa para não me quereres. Promete-me que me quererás, agora, amanhã e depois. Eu vou querer muito isso. Eu vou querer-te. Prometo-me.

Promete-me que me irás ajudar também a recuperar o sabor das estrelas, do ar matinal que ainda ninguém respirou, do entardecer lá ao longe no horizonte e ao mesmo tempo tão perto de nós. Promete-me que te manterás perto, mas oxalá não entardeças e te tornes escuro e deserto como as ruas nas quais ninguém tem vontade de vaguear. Promete-me que vamos vaguear um no outro... E em aromas, gargalhadas e lençóis. Promete-me que vais fazer com que os raios de sol e a brisa quente que emana da terra valham a pena. Promete-me rodopios sob luzes de holofotes, embriaguez de sons vibrantes que nos levam ao colo até ao paraíso, o torpor agradável que toma conta dos nossos músculos depois de vivermos tudo isso de forma condensada somente num instante. Promete-me que vais continuar a justificar as minhas crises de vómitos prosaicos, os meus ataques de devoção sincera, as viagens que faço por entre nuvens de maionese...

Não quero que me prometas o que não possas cumprir. Espero por isso não estar a pedir demais. Mas promete-me que farás tudo isto. E eu te reembolsarei com a respectiva devolução.

Eu te prometo.

abril 21, 2013

Gosto De Ti

Gosto de ti. Desculpa. Sei que estou a cometer uma grande ousadia ao fazê-lo. E essa ousadia seria maior se metesse um "muito" ali pelo meio. Gosto muito de ti. Desculpa porque não te pedi permissão. Nem sequer te avisei com antecedência. Agora já não dá para remediar. Mesmo que retirasse o "muito", de pouco ou nada serviria. Porque gosto de ti. E pronto. Ponto final. Sem reticências nem vírgulas. Os pontos de interrogação também não fazem cá falta. Só se for os de exclamação. Gosto de ti? Isso nem se pergunta! Claro que gosto de ti! Pois gosto. Mas de maneira a não provocar grande celeuma, prometo ser bastante racional acerca deste assunto. Vou tentar não sentir e limitar-me apenas a pensar. Em ti. Vou tentar abstrair-me da tua pessoa, e concentrar-me noutra coisa diferente. Por exemplo... Tu. Vou tentar então não gostar ainda mais, porque aí corro o sério risco de pagar o meu atrevimento com a própria vida, pois vou ter que deixar que entres nela e a tomes de assalto. Não é que eu na verdade me importe... Ora, pensando bem, se eu gosto de ti, é porque de alguma forma tu já a fizeste refém. Mesmo que eu me contenha a gostar ainda mais... Desculpa se o fizer. Continuo a ter uma atitude audaz porque a autorização não me foi dada por ti. Gosto de ti, mesmo assim. Sem ponto final. Porque a seguir não há parágrafos. O discurso se mantém, tão directo como eu. 

Desculpa a sinceridade e a frontalidade, mas... Eu menti todo este tempo. 

Eu afinal não gosto de ti. Gosto é de... Gostar de ti.